Domingo de Páscoa cristão

Ame ao próximo e faça o bem que deseja para ti a ele

Domingo de Páscoa cristão
Ilustração: aquarela de James Tissot (*1)

Quando os poderes político e econômico se fundem com o poder religioso, a fé vira instrumento de legitimação de interesses de grupos sociais e é pervertida, afastando-se do amor ao próximo e ficando regida pelo egoísmo. Assim era no tempo de Jesus e, por muito tempo, o foi no mundo. Como Jesus predisse na Santa Ceia: o ódio sem causa e o assassinato em nome de Deus.
A Palavra, assim, é facílima de ser entendida e, também, de ser deturpada em prol de interesses a ela alheios. Difícil é praticar a Palavra. Exige muito. Amar ao próximo exige vigília permanente contra o egoísmo e desapego da matéria. "A carne é fraca". Somos seres encarnados. Jesus era um ser encarnado. Disse: "Pai, afasta de mim esse cálice". E, se até ele, o Filho de Deus, sentiu o peso da carne, imagina a gente, almas imperfeitas em evolução.
Hoje, as festas religiosas são incorporadas culturalmente pelo poder econômico: os presentes no Natal (que, sabemos, é uma festa convencionada pela Igreja) do Papai Noel e os ovos de chocolate do Coelinho da Páscoa. Eu, quando criança, associava a Páscoa a: Jesus na cruz, peixe na Sexta-feira Santa e os ovos de chocolate do Domingo de Páscoa. Ainda é assim, com o peixe e os ovos de chocolate em evidência, visto o lucrativo comércio que ensejam. Seria a versão atual dos Vendilhões do Templo, que Jesus expulsou no Domingo de Ramos?
Pode ser, mesmo que seja duro dizer isso. Embora, por outro lado, sejam costumes associados à Páscoa até por iniciativa das igrejas. Bom, geram emprego e renda, isso é verdade, e é algo positivo. Na Páscoa importa o sentido, a simbologia e, assim, os peixes e os coelhos de chocolate passam, no comércio atual, ao largo da reflexão íntima sobre o exemplo extremo de amor ao próximo dado por Jesus numa Páscoa Judaica em que foi difamado e executado em nome de Deus.
Jesus trouxe a "Boa Nova", um Novo Testamento atualizando o Velho Testamento. Trouxe o Deus Pai, distanciando-o do Deus Senhor: O Deus que ama e perdoa em contraponto ao Deus que odeia e mata. O Deus generoso, não o Deus vingativo, o Deus que envia Seu Filho em tarefa de sacrifício pelos pecados do homem.
Na Sexta-feira Santa comemos o peixe em família, e isso é algo muito legal. Refletimos sobre Jesus, ao cumprirmos o costume da abstinência de carne (outra convenção da Igreja, aliás, já abandonada por ela)? Há quem só coma peixe por achar que é pecado comer carne nesse dia! Irão refletir sobre Jesus? No domingo nos entupimos e entupimos nossas crianças de chocolate. Isso também é legal, esse momento feliz em família. Mas refletimos sobre Jesus nesse dia?
Logo, o problema não está nesses "acessórios", o peixe e o coelho de chocolate, mas em nós mesmos e na apropriação comercial da Páscoa, o que gera uma deturpação cultural do sentido religioso. São os Vendilhões do Templo, as Trinta Moedas de Judas, é o mundo. Podemos concluir que os peixes e os coelhos são igualmente vítimas desse sistema.
E, se o sentido da Palavra é deturpado na Páscoa, fica muito fácil sermos como a Figueira Sem Frutos e a Figueira Seca da Segunda-feira Santa e Terça-feira Santa. Os líderes religiosos do tempo de Jesus o eram, pois amavam Deus, mas não amavam ao próximo, eis que não praticavam (e frutificavam) em benefício destes. Ao contrário, eram hipócritas, pois usufruíam materialmente de sua fé, explorando o povo. Assim, amar a Deus não basta. É praticar o amor ao próximo, mostrando compreender a Palavra e, de fato, amar a Deus. Só imagem e pompa é esterilidade.
Hoje é o dia que, ao amanhecer, Jesus já havia ressuscitado e abandonado o sepulcro, em Jerusalém, num domingo, Domingo, 11 de abril, 27 d.C. (*2). É a vida que permanece, é a Palavra que vive. Palavra que pode ser resumida em: ame ao próximo e faça o bem que deseja para ti a ele. Só isso. Se mesmo as pessoas que não possuem religião ou fé praticassem isso, o mundo seria um lugar bem melhor para se viver.
"Vigiai".
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(*1) - James Joseph Jacques Tissot (15.10.1836 – 08.08.1902), pintor francês que produziu mais de 700 aquarelas sobre a vida de Jesus e o Velho Testamento.

(*2) - Datação conforme:

PAGLIARIN, Juanribe. Jesus - A vida completa. 36ª ed. São Paulo: Bless Press. 2016