A pequena baiana carioca nascida em Portugal, Carmen, era notável

“Com tanto brasileiro por aí metido a bamba, sucesso no exterior ainda é Carmem Miranda”

“Com tanto brasileiro por aí metido a bamba, sucesso no exterior ainda é Carmem Miranda” – cantou Rita Lee na canção Arrombou a Festa II, de 1979. À época, a cantora luso-brasileira faria 70 anos, eis que falecera em 05 de agosto de 1955, em Beverly Hills, Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos, aos 46 anos. O local de seu óbito dá pista sobre o quão longe essa fenomenal artista chegou.

Se hoje os EUA são a meca da indústria cultural, foi nas décadas de 1940 /50 que essa hegemonia na arte/entretenimento de massas se estabeleceu na música e no cinema, devido a debacle econômica geral da Europa com a Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo, uma das grandes estrelas do chamado showbizz norte-americano era “A Pequena Notável” Carmen Miranda, portuguesa de nascimento (09.02.1909), carioca desde os 10 meses de idade e baiana por caracterização artística. Como bem disse Rita, um sucesso tão superlativo que até hoje nenhum outro artista brasileiro igualou ou mesmo chegou perto.

O apelido, devido ao sucesso e a baixa estatura, foi dado no Rio de Janeiro, onde começou a cantar nas rádios no ano de 1928, sendo a primeira artista com salário mensal contratada por uma emissora, em 1932. Seu primeiro grande sucesso foi a canção Taí (Pra você gostar de mim), composta por Joubert de Carvalho (06.03.1900 – 20.09.1977), gravada em 1930. Sucesso nas paradas, a ida para as telas do cinema foi natural, estrelando muitos musicais nacionais.

Em 1939 apareceu pela primeira vez com a caracterização com a qual brilhou no exterior e é até hoje lembrada: vestida de baiana, no filme Banana da Terra, onde interpretava a canção O Que é Que a Baiana Tem?, de Dorival Caymmi (30.04.1914 – 16.08.2008). No mesmo ano o produtor teatral da Broadway Lee Shubert (25.03.1871 – 25.12.1953) a viu numa apresentação no Cassino da Urca, no Rio, e a convidou para uma temporada de oito semanas nos Estados Unidos.

Essa foi a sua porta de entrada para o cinema americano onde, em 1945, chegou a faturar 200 mil dólares, sendo considerada pelo Departamento do Tesouro a mulher mais bem paga naquele país. Foram 14 filmes, a absoluta maioria deles musicais, entre 1940 e 1953. Já em março de 1940 ela foi convidada a realizar uma apresentação para o presidente Franklin Roosevelt (30.01.1882 – 12.04.1945), durante um banquete na Casa Branca.

Sua fama no exterior gerou controvérsia no Brasil, eis que muitos intelectuais criticavam a baiana por ela personificada, com os famosos chapéus ornados com frutas tropicais, como caricata. Em resposta, Carmen gravou, em setembro de 1940, a canção Disseram que Voltei Americanizada, composta por Vicente Paiva (18.04.1908 – 18.02.1964) e Luiz Peixoto (02.02.1889 – 14.11.1973): “Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno / Eu posso lá ficar americanizada / Eu que nasci com o samba e vivo no sereno / Topando a noite inteira a velha batucada / Nas rodas de malandro minhas preferidas / Eu digo mesmo eu te amo, e nunca "I love you" / Enquanto houver Brasil / Na hora da comidas / Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

A biografia dessa artista, que teve sua vida ligada a três continentes, é muito mais ampla do que esse pequeno texto. O importe é recordar seus 110 anos de nascimento recém completos, ressaltando o quanto ela foi tão longe sem deixar de ser ela mesma, uma brasileira carioca-baiana que veio lá de Portugal para levar a arte de seu país de adoção para o mundo.