Morte digna

Morreu com dignidade e, acredito, isso faz diferença nessa hora derradeira.

“Fulano morreu mal”. Assim as pessoas falam quando determinada pessoa falece de forma “sofrida”. Não que exista algo como “morrer bem”, visto que o fim sempre é algo triste para familiares e amigos e, principalmente, claro, para quem perde sua vida.

Essa semana a minha sogra apareceu um dia ali em casa com um passarinho na mão. Estava sentado na área curtindo a brisa do início da tarde de primavera e ela: “Olha o que tirei da boca da Felícia!” A minha esposa pegou o bichinho que, naturalmente, parecia estar morto ou em choque. Sei lá se passarinho fica em choque, mas foi a Felícia aparecer para reclamar a propriedade de sua caça que o passarinho pareceu voltar a si. Espantei a gata dali e minha esposa colocou a pequena ave na cozinha, dentro de uma caixa de transporte de gatos, vejam só a ironia do destino.

Eu sei, por experiência própria, por já ter visto muitas vezes meus gatos dando bote em passarinhos, que ou tu espanta o alado na hora ou, se o felino o pega, já era. A mordida inicial sempre é fatal, se não no momento, posteriormente, pelas sequelas. Não disse isso para as duas, não queria lhes retirar a esperança e, tampouco, tirar as parcas chances do passarinho, que parecia ser um filhotão.

Melhor deixá-lo morrer ali, dentro da caixa, se fosse o caso, do que tetricamente, seviciado pelas presas da gata. Foi o que aconteceu. No primeiro dia ele ficou lá, piava de vez em quando. Moí uma bolacha Zezé e coloquei um pote pequeno com água lá dentro. À noite, vi que deitara dentro da água. Estaria com febre? No outro dia, lá pelo final da tarde, estava morto. Sofreu mais assim, com dores? Não sei. Prefiro acreditar que teve uma morte mais digna, cuidado e tratado com respeito, do que seria seu fim violento na boca da bichana. Porque isso é o que faz a diferença para nós, humanos, nessas situações. Nem todo mundo morre igual e da mesma forma.

Minha madrinha faleceu com 102 anos, tirando uma sesta depois do almoço, antes de fazer a fisioterapia. Foram acordá-la e ela já havia partido calmamente para o sono eterno. Foi uma grande mulher, a matriarca da família do meu pai. Matriarca de verdade, tipo assim autoridade maior da família, líder. Já minha tia que morava com ela, setentona, morreu alguns meses depois, vitimada por um tumor no cérebro. Sofreu, mas sua condição financeira privilegiada lhe permitiu todo o tratamento médico disponível em um hospital particular, o que minorou sobremaneira sua agonia.

Um grande amigo teve de enfrentar um câncer terminal. Estava num hospital público, numa daquelas alas separadas por cores vermelha, laranja, amarela, verde. Eram centenas de leitos lado a lado numa sala enorme, os enfermeiros indo de um lado para outro, saindo de uma base fixa bem ao centro do espaço. Eu fui vê-lo e fiquei arrepiado com aquilo, estava ali um serviço que eu não faria, com certeza. “João, me tira daqui. Isso aqui, de noite, parece o umbral, é só gente gemendo pra todo o lado. Não aguento mais. Eu não sou burro, sei que vou morrer, mas não aqui nesse lugar, aqui não”.

Junto com mais alguns amigos e parentes, corremos daqui e dali e o colocamos no andar de cima do mesmo hospital, onde eram cinco pacientes com acompanhante num quarto, com um tratamento de enfermagem melhor, mais constante, além de contato maior com o médico responsável. “Agora sim, estou sendo tratado com dignidade”, disse-me, com um sorriso no rosto. Assim como o passarinho, ele morreu dias depois. Era um cara forte, muito forte, resistiu bastante. Segurava minha mão ao morrer, senti seu coração colapsando e parando. Ele estava delirando quando isso ocorreu, mas creio que foi melhor do que onde estava antes, onde o fim certamente o acharia sozinho. Morreu com dignidade e, acredito, isso faz diferença nessa hora derradeira.