A Maldição da Residência Hill

Série se consagra por terror psicológico e criatividade narrativa

Por Cinema - Marcelo Figueiró 07/11/2018 - 19:44 hs

O grande lançamento da Netflix no último mês foi para "A Maldição da Residência Hill"( The Haunting of Hill House, EUA, 2018). Uma série de terror dirigida por  Mike Flanagan (Ouija 2, 2016). O programa tem dez episódios,  baseados   no livro homônimo, de 1959, de Shirley Jackson. A história foi inteligentemente lançada no mês do Hallowen, mas pode decepcionar fãs de terror mais pesado. Mais que sustos, o seriado foca em um denso drama familiar e, hora ou outra,em elementos sobrenaturais, para animar o roteiro.


Velha Casa Nova
Na história a família Craim se muda para a antiga Mansão Hill. O intuito do pai, Hugh (Timothy Hutton, O Escitor Fantasma, 2010), é reformar a casa para vendê-la por um preço maior. Também compõe o núcleo familiar a esposa Olivia (Carla Gugino, Jogo Perigoso, 2017),  o filho primogênito, Steven (Paxton Singleton) as filhas Shirley (Lulu Wilson) e Theodora (Mckenna Grace) o casal de gêmeos, Luke (Julian Hilliard) e Neil (Violet McGraw). Não demora para que diversas manifestações sobrenaturais comecem a invadir a vida das crianças. Estas recebem o descrédito dos pais para as aparições.



Fuga inesperada
Alguns dos pequenos acabam sendo abordados por uma mulher de pescoço quebrado, uma menina de azul e um homem de chapéu e bengala que vagam pela casa. Uma noite, sem muita explicação, o pai das crianças invade o quarto do filho maior para salvá-lo do que parece ser um ataque da casa contra família. Ele foge, coloca os filhos em seu carro, deixando a mãe para trás, com o perigo que se abate no local.

O fantasma do futuro
Logo a série corta para mais de vinte anos no futuro, no período atual. A apresentação foca no que cada integrante da família se tornou. Isto acontece no momento que a mansão parece ter voltado a atacar seus membros. Para este flashforward a série utiliza o recurso de uma narrativa não linear. Nela apresenta a nova vidas dos Craim. Cada episódio traz a experiência de um dos garotos e garotas a partir da vivência dos fenômenos da casa. A cada capítulo é possível acompanhar suas trajetórias desde criança, passando pelo amadurecimento, até o momento atual, do novo ataque da casa.



Transformação assustadora
Assim, descobrimos que cada uma das crianças está completamente modificada. Steven (Michiel Huisman, Amor em Tempo de Guerra, 2016), o primogênito dos Craim, virou um escritor de sucesso. Shirley (Elizabeth Reaser, Crepúsculo, 2008) é uma agente funerária. Theodora (Katie Siegel, Hush: A Morte Ouve, 2016) é psicóloga. Já os gêmeos Luke (Oliver Jackson-Cohen, Cidade das Esmeraldas, 2017) e Neil (Victoria Pedretti) se tornaram respectivamente um drogado em recuperação e uma portadora de rara doença do sono. Agora os Craim vão precisar se juntar para chorar o luto de um parente e, principalmente, tentar desvendar os segredos da casa. Tudo para por um fim no sofrimento que tanto ela lhes causou.

Susto diferente
Fãs de terror talvez demorem a sentir gosto pela série. Normalmente os filmes deste gênero tentam manter o espectador tenso o tempo todo, para aplicar um susto do tipo jump-scare (técnica que faz o espectador pular da cadeira pela inserção inesperada de um monstro e aumento do volume, com trilha sonora tétrica). Óbvio que não existe como manter o espectador prendendo a respiração nas dez horas que compõe o seriado. Portanto os autores encontram outras maneiras de apresentar o sobrenatural.  A Maldição da Residência Hill trabalha o horror de uma forma mais psicológica, com poucas aparições de outro mundo por capítulo. Quando as criaturas aparecem é algo realmente tenso.

Indo e voltando no macabro
Na verdade o que dá gosto de assistir no seriado é sua forma de apresentação. Como já disse, os diretores optaram por realizar uma narrativa não linear, ao contar a história dos membros da família. Ele utiliza um episódio para cada integrante. Portanto, a mesma cena é apresentada várias vezes, sob o ponto de vista de cada um, nos auxiliando a entender o que realmente é a maldição. O espectador vai e volta na mesma tomada. Assim descobre que elementos, aparentemente sem importância, são fundamentai para entender a trama. Mais que uma série de terror, o programa é um ótimo quebra cabeças, que te prende na frente da tela até o final da temporada.

Repartindo o medo
Este formato, de lançamento de um seriado inteiro, com todos seus capítulos, simultaneamente parecia estranho logo que a Netflix chegou ao mercado. No entanto ele é ótimo, porque proporciona que os autores elaborem verdadeiros filmes, mais intensos, sem interferência do público(como ocorrem nas séries de TV aberta ou a cabo), e com tempo suficiente de tela para se trabalhar cada personagem e cada nuance da história, da forma adequada.

Parceiro de peso
Que venha mais séries como "A Maldição da Residência Hill", que elas nos envolvam e nos façam adquirir cultura e entretenimento de uma forma completamente nova. O cinema merece um parceiro a altura nas novas mídias. Não será nada mal se este companheiro for tão grandioso como foi a assustadora residência Hill