Apertem os cintos... O centro sumiu!

A desidratação do centro foi mais repúdio às reformas ou apenas uma guinada da população para as pautas mais conservadoras, embalada pela corrupção dos grandes partidos tradicionais e pela insegurança pública?

Duas perspectivas que se tinha no primeiro turno da eleição presidencial, a partir das pesquisas eleitorais, confirmaram-se nas urnas dia 7 de outubro: 1 – a de que haveria segundo turno; 2 – a de que todos os candidatos diretamente ligados às reformas do governo Temer (PEC do Congelamento, terceirização, reformas trabalhista e da Previdência) não ficariam entre os três primeiros colocados. Já abordei esses pontos no artigo As pesquisas eleitorais e as reformas de Temer (https://www.observatoriodaseleicoes.org/feed-de-posts/a-renova%C3%A7%C3%A3o-conservadora-na-c%C3%A2mara) , aqui no Portal, em 2 de outubro.

Assim, a constatação mais geral é a de que o centro político diretamente ligado ao governo Temer e a suas reformas foi desidratado! Os votos conservadores que migraram para a extrema-direita e a direita vieram da centro-direita e do centro: bancadas do PSDB e MDB na Câmara dos Deputados reduziram sua representação, respectivamente, de 120 parlamentares eleitos em 2014 (PSDB 54 - MDB 66) para 63, praticamente a metade. O DEM, embora tenha eleito 21 deputados federais em 2014 e 28 agora, abrigava 43 membros em sua bancada atual, devido a parlamentares que se transferiram para o partido na atual legislatura; logo, ele perdeu 15 cadeiras.
Para acentuar que essa perda de espaço e transferência de representação político-eleitoral ocorreu do centro para a direita, observe-se que o campo político da esquerda, também na Câmara, elegera 137 deputados em 2014 e 135 agora em 2018: PT 69 – 56, PSB 34 – 32, PDT 19 – 28, PCdoB 10 – 9 e PSOL 5 – 10. Outro aspecto a ser levado em conta é o resultado da eleição presidencial: os candidatos Alckmin (PSDB) e Meirelles (MDB), juntos, somaram 6% dos votos, enquanto Jair Bolsonaro (PSL), obteve o grande índice de 46%; Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT) conseguiram 41%, o mesmo percentual obtido por Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno em 2014. Logo, é fácil constatar que o eleitorado de esquerda variou dentro do próprio campo, não migrando para partidos conservadores.
Agora a pergunta é: como fica a política nacional com o enfraquecimento do centro, o fortalecimento da direita e a manutenção da esquerda? O nível de polarização político-ideológica desta eleição mostra um aperitivo do que virá pela frente, ainda a depender do resultado do segundo turno. No geral, e isso independente do que as urnas disserem dia 28 de outubro, as pautas conservadoras na área dos costumes ganharão força na agenda do parlamento nacional.
No quadro geral mais provável, conforme mostrou a apuração no primeiro turno e indicam as pesquisas recentes de segundo turno, com a vitória de Bolsonaro o protagonismo das pautas conservadoras e a manutenção das reformas será total, permanecendo apenas a previdenciária em aberto; caso Haddad vença, as reformas do governo Temer serão colocadas em cheque, embora a revogação destas enfrentará forte resistência no Congresso Nacional. Surge a questão: a desidratação do centro foi mais repúdio às reformas ou apenas uma guinada da população para as pautas mais conservadoras, embalada pela corrupção dos grandes partidos tradicionais e pela insegurança pública? Novamente serão as urnas a responder.
Todavia, vença quem vença, preparem-se todos para quatro anos de extrema e inédita polarização política, quiçá um aprofundamento do quadro embrutecido que estamos assistindo nesse pleito, visto que os opostos, em política, não se atraem, mas se repelem e conflitam. Logo, apertem os cintos que o avião vai entrar em grande turbulência, eis que o centro sumiu e não haverá algodão entre os cristais. Quem viver, verá.