Crônica da eleição

Imagino o entrevero que deu lá na hora do voto dele na urna

Por João Adolfo Guerreiro 09/10/2018 - 09:09 hs
Crônica da eleição
Escola Nicácio Machado

Domingo de sol de primavera em outubro, dia de eleição, um lindo dia. Acordo pela manhã e acompanho familiares para votar. Observo que algumas coisas mudaram nesse pleito.

Estranhei a pouca quantidade de bandeiras de partidos e de candidatos majoritários. Nem de senadores vi nada, só dos apoiadores de candidatos à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados, em número bem menor em comparação com anos anteriores. Agora as campanhas são pelas redes sociais. O WhatsApp é a nova onda, a política rola solta nos seus grupos, superando até o “tiozão” Facebook, ambos recheados de “fake news” contra e a favor dos candidatos, a velha arma da boataria de outrora agora digitalizada. É o que o pessoal e os analistas dizem por aí, em uníssono.
Mas na eleição à moda antiga, na do mundo real e não a mediada pela rede virtual, no dia da votação tu sai e vê as pessoas na rua, porque votar ainda não pode ser online. Ainda. Então tu vai caminhando e encontrando as pessoas, como um colega de serviço que foi transferido e vejo pouco. Conversamos. Ele é dos que mais me incomoda e provoca “educadamente” nas redes sociais por minha posição eleitoral, “diversa” da dele. Em quem tu vai votar, tchê? Ele responde: Marcelo Sgarbossa (PT) para estadual, não lembro pra quem para federal, Paim (PT) e Carmem Flores (PSL) pro Senado, Rosseto (PT) governador e Bolsonaro (PSL). Ele deu voto para os dois extremos! Imagino o entrevero que deu lá na hora do voto dele na urna, eh eh eh eh.
Mas conheço uma pá de gente na minha cidade que também votou seco e convicto no Rosseto e no Bolsonaro, uma dobradinha bem insólita. As pessoas não estão nem aí, votam em quem elas querem e pronto, conforme os interesses diversos que possuem, dentro da perspectiva de entendimento que elas tem das coisas, à revelia dos opostos que se digladiam na internet e nas calçadas. É um fato interessante para se analisar política e sociologicamente... Em outro momento.
Ali no centro tudo muito tranqüilo, vizinhos “fascistas” e “comunistas” conversando, numa boa. Na vida real as pessoas maneiram, pois no olho no olho não tem a distância do mundo virtual. O meu vizinho tenta virar meu voto e eu tento virar o dele, cheios de argumentos cada um. Ambos, lógico, fracassamos, mas combinamos de tomar café juntos na rodoviária no outro dia para conversar sobre as novidades do futebol e da eleição, claro, sobre o provável segundo turno entre Haddad e Bolsonaro. A tolerância é uma prática natural entre quem convive e se respeita. O problema é que as pessoas que não se conhecem tendem ao desrespeito num ambiente político polarizado, onde muitos interesses econômicos estão em jogo e, sabemos, o bolso é uma parte sensível das pessoas.
A urna 49, onde voto, foi transferida do Clube Tiradentes para a escola Nicácio Machado. Era muito boa aquela seção do Tiradentes, apreciava ficar o dia inteiro por lá conversando e vendo o movimento eleitoral, ela faz falta à cidade. Chego no Nicácio ao meio-dia e dou de cara com uma fila das boas, essa urna é uma das maiores. Ah não, volto para o churrasco em família. Tiro uma soneca depois e acordo às 16h15min.
Subo na bicicleta e pedalo até lá a tempo de exercer minha cidadania. Adoro a democracia civil, ela é processo de aprendizagem continuo. O movimento, pouco, arrefecera ainda mais. Na saída, dou de cara com um amigo que não via há tempos, pois ele está morando em Florianópolis. Conversamos brevemente, ele manda um abraço para o pessoal lá de casa. Puxa vida, só lembrei agora que eu estou escrevendo que esqueci de falar pro pessoal que o vi. Vou lá corrigir minha falha.