Crônica da eleição

Imagino o entrevero que deu lá na hora do voto dele na urna

Crônica da eleição
Escola Nicácio Machado

Domingo de sol de primavera em outubro, dia de eleição, um lindo dia. Acordo pela manhã e acompanho familiares para votar. Observo que algumas coisas mudaram nesse pleito.

Estranhei a pouca quantidade de bandeiras de partidos e de candidatos majoritários. Nem de senadores vi nada, só dos apoiadores de candidatos à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados, em número bem menor em comparação com anos anteriores. Agora as campanhas são pelas redes sociais. O WhatsApp é a nova onda, a política rola solta nos seus grupos, superando até o “tiozão” Facebook, ambos recheados de “fake news” contra e a favor dos candidatos, a velha arma da boataria de outrora agora digitalizada. É o que o pessoal e os analistas dizem por aí, em uníssono.
Mas na eleição à moda antiga, na do mundo real e não a mediada pela rede virtual, no dia da votação tu sai e vê as pessoas na rua, porque votar ainda não pode ser online. Ainda. Então tu vai caminhando e encontrando as pessoas, como um colega de serviço que foi transferido e vejo pouco. Conversamos. Ele é dos que mais me incomoda e provoca “educadamente” nas redes sociais por minha posição eleitoral, “diversa” da dele. Em quem tu vai votar, tchê? Ele responde: Marcelo Sgarbossa (PT) para estadual, não lembro pra quem para federal, Paim (PT) e Carmem Flores (PSL) pro Senado, Rosseto (PT) governador e Bolsonaro (PSL). Ele deu voto para os dois extremos! Imagino o entrevero que deu lá na hora do voto dele na urna, eh eh eh eh.
Mas conheço uma pá de gente na minha cidade que também votou seco e convicto no Rosseto e no Bolsonaro, uma dobradinha bem insólita. As pessoas não estão nem aí, votam em quem elas querem e pronto, conforme os interesses diversos que possuem, dentro da perspectiva de entendimento que elas tem das coisas, à revelia dos opostos que se digladiam na internet e nas calçadas. É um fato interessante para se analisar política e sociologicamente... Em outro momento.
Ali no centro tudo muito tranqüilo, vizinhos “fascistas” e “comunistas” conversando, numa boa. Na vida real as pessoas maneiram, pois no olho no olho não tem a distância do mundo virtual. O meu vizinho tenta virar meu voto e eu tento virar o dele, cheios de argumentos cada um. Ambos, lógico, fracassamos, mas combinamos de tomar café juntos na rodoviária no outro dia para conversar sobre as novidades do futebol e da eleição, claro, sobre o provável segundo turno entre Haddad e Bolsonaro. A tolerância é uma prática natural entre quem convive e se respeita. O problema é que as pessoas que não se conhecem tendem ao desrespeito num ambiente político polarizado, onde muitos interesses econômicos estão em jogo e, sabemos, o bolso é uma parte sensível das pessoas.
A urna 49, onde voto, foi transferida do Clube Tiradentes para a escola Nicácio Machado. Era muito boa aquela seção do Tiradentes, apreciava ficar o dia inteiro por lá conversando e vendo o movimento eleitoral, ela faz falta à cidade. Chego no Nicácio ao meio-dia e dou de cara com uma fila das boas, essa urna é uma das maiores. Ah não, volto para o churrasco em família. Tiro uma soneca depois e acordo às 16h15min.
Subo na bicicleta e pedalo até lá a tempo de exercer minha cidadania. Adoro a democracia civil, ela é processo de aprendizagem continuo. O movimento, pouco, arrefecera ainda mais. Na saída, dou de cara com um amigo que não via há tempos, pois ele está morando em Florianópolis. Conversamos brevemente, ele manda um abraço para o pessoal lá de casa. Puxa vida, só lembrei agora que eu estou escrevendo que esqueci de falar pro pessoal que o vi. Vou lá corrigir minha falha.