Yoñlu/Gauguin: viver é sobreviver

Os artistas mais sensíveis costumam usar outro parâmetro

Um, a força da fragilidade; o outro, a fragilidade da força. Dois personagens distantes no tempo e no espaço, dois artistas de áreas distintas em choque criativo e existencial com a realidade que os cercava, alvos de filmes igualmente distintos em cartaz nos cinemas de Porto Alegre: Yonlu e Gauguin - Viagem ao Taiti.

Yonlu é um longa-metragem gaúcho com uma narrativa não tradicional. A princípio fui achando ele chato, mas quando entrei na intenção do diretor, reconsiderei: muito bom, diferente e estimulante, vale o ingresso. É sobre um adolescente de 16 anos de Porto Alegre, desenhista, poeta e músico, que cometeu suicídio em 2006, incentivado por um grupo de internet. O fato repercutiu bastante, à época, vocês devem recordar. A gente olha o filme e fica tocado com o grande desperdício que foi a morte desse rapaz inteligente, talentoso e criativo, que tirava justamente de sua fragilidade existencial a inspiração para sua arte. Fico por aqui para não revelar demais.

Gauguin – Viagem ao Taiti é uma cinebiografia com narrativa tradicional do pintor franco-peruano Paul Gauguin (07.06.1848 – 08.05.1903), que abarca o período de sua primeira ida o Taiti, na busca de dar outro rumo a sua arte, contemporânea ao Impressionismo. Gauguin, ao contrário de Yonlu, tirava de sua força interior o ânimo para perseverar na busca de um conteúdo inovador para sua arte, em choque com a realidade adversa de sua situação financeira precária e de sua vida amorosa conturbada. Foi um homem tenaz e ousado, artista admirado por seus pares pelo comprometimento corajoso e radical com sua carreira, como quem ver o filme constatará. Ademais, todos o sabemos, deixou sua assinatura na história como um dos pintores mais originais do Ocidente.

Ambos os filmes falam da arte e da vida. Viver é sobreviver, correndo riscos calculados, para nós todos. Já os artistas mais sensíveis costumam usar outro parâmetro, mais radical. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como cantou Caetano Veloso.

Uma boa opção é assisti-los no Guion Center, que fica no Centro Comercial Nova Olaria, na Lima e Silva. Eles estão em cartaz em horários diferentes, dá pra ver um e depois o outro, além da possibilidade de curtir os pubs temáticos e restaurantes alternativos do Nova Olaria, diferentes dos estabelecimentos que tradicionalmente encontramos nos shoppings da capital. Ainda há a livraria Bamboletras, não poderia esquecer de mencioná-la, onde tu encontras muita coisa boa na área de artes e humanidades.