Suicídio

Os questionamentos e a conversa sobre o assunto poderia ajudar o sujeito com ideação suicida, já que, na crise suicida, é comum a ambivalência sobre viver ou morrer

Por Clin - Clínica Infanto Juvenil 13/09/2018 - 18:15 hs

Roberta Caron Viero
Médica Psiquiatra - Cremers 30806

Na semana passada* fui convidada a responder algumas perguntas sobre suicídio. O tema gerou curiosidade, o que estaria motivando uma matéria jornalística sobre esse assunto? Soube, então, que no último mês houve muitas mortes por suicídio na região e que essa situação sensibilizou os que ficaram. A notícia e a reportagem me fizeram lembrar do quanto é importante falarmos sobre esse assunto e que não havia tratado sobre ele ainda neste espaço.
A grande maioria das pessoas que cometem suicídio apresentam alguma doença mental, no entanto a crise suicida é multifatorial e os fatores culturais, religiosos, psicológicos e biológicos influenciam esse comportamento. Porém, há quase trinta anos, o suicídio foi considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) um problema de saúde pública que, desde então, também passou a incentivar a criação de medidas preventivas.
O Brasil apresenta algumas diretrizes gerais sobre o tema, mas que ainda não constituem um plano nacional de prevenção ao suicídio. O Brasil assumiu, então, junto a OMS um compromisso para reduzir em 10% o número de mortes por suicídio até 2020; apesar de estarmos quase lá, as estatísticas não tem mudado. Estamos num processo de construção deste cuidado preventivo; uma das razões poderia ser que até início dos anos 2000 as mortes por suicídio não eram entendidas como um problema de saúde, além  dos registros das mortes por suicídio se confundirem aos de mortes violentas ou aos de doenças endêmicas. A notificação adequada dos casos possibilitaria a análise das informações fornecidas pelos registros e, assim, viabilizariam o planejamento de medidas preventivas específicas para cada território.
Algumas medidas de prevenção geral envolvem atenção às pessoas com sofrimento físico incapacitante, com sofrimento psíquico e com abuso de álcool e outras drogas, pois abrangem mais de 90% dos suicidas; essas medidas envolveriam tanto a qualificação das avaliações e dos atendimentos, quanto a disponibilidade de acesso à rede de cuidado em saúde mental. Outra iniciativa importante é a conscientização da população sobre o assunto e a desconstrução de alguns tabus. Falar sobre suicídio não incentiva a pessoa a praticá-lo, isso é um mito; por receio, porém, muitas pessoas deixam de questionar alguém próximo sobre isso. Os questionamentos e a conversa sobre o assunto poderiam ajudar o sujeito com ideação suicida, já que na crise suicida é comum a ambivalência sobre viver ou morrer.

(*) Texto publicado originalmente em 1º/02/2018