O sanfoneiro e o Diabo Loiro

O que poderiam ter em comum esses dois?

Por João Adolfo Guerreiro 10/08/2018 - 09:12 hs

José Osório de Farias nasceu em Pernambuco, na cidade de São José do Belmonte, em 20 de fevereiro de 1906. Com talento para a música, torna-se sanfoneiro considerado em sua região. Cristino Gomes da Silva Cleto é alagoano de Matinha de Água Branca, nascido em 10 de agosto de 1907. Ainda jovem, aos 17 anos, atirou no namorado de uma moça que lhe rejeitara durante um baile, visto que o cabra lhe surrara. Começava a vida bandida daquele que viria a ser chamado de Diabo Loiro, alusão à ferocidade e a cor dos cabelos, mesmo com o “Cristino” no nome de batismo.
O que poderiam ter em comum esses dois? O capitão Virgulino Ferreira da Silva, o afamado cangaceiro Lampião. José Osório, já conhecido como José de Rufina (por ser filho de Maria Rufina), foi por duas vezes convidado pelo Rei do Cangaço para se juntar ao seu bando, mas não quis; Cristino também foi e aceitou, tornando-se conhecido pela alcunha de Corisco, o mais tenaz e famoso subchefe dos cangaceiros ligados ao Capitão. José de Rufina percebeu que não teria liberdade para tocar sua sanfona em paz e resolveu tomar o lado oposto: foi para a Bahia ser policial militar onde, ao passar de poucos anos, já ocupava o posto de tenente e comandava a mais implacável e temida de todas as volantes do nordeste brasileiro, responsável pela morte de dezenas de bandidos ligados ao cangaço.

O nome Zé Rufino (como passou a ser chamado o ex-sanfoneiro) tomou tamanha proporção que naquele fatídico julho de 1938 um dos principais motivos elencados para que o capitão Virgulino Ferreira chamasse todos os seus grupos de cangaceiros para uma reunião no coito da Grota Angico seria a intenção de planejar e executar uma armadilha para a volante do tenente. Corisco e seu bando fora chamado e, no raiar do dia 28, estava na outra margem do rio São Francisco, preparando-se para atravessá-lo e ir para a Grota, quando ouviu a intensa carga de tiros da volante de João Bezerra contra o coito, o que resultou na morte de Lampião, sua esposa Maria Bonita e mais nove cangaceiros e cangaceiras.

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Tomado de ódio, ao entardecer do dia 02 de agosto foi em busca de vingança, o que resultou num dos episódios mais brutais e bestiais da história do cangaço. Chegou à fazenda Patos e perguntou pelo vaqueiro responsável pela mesma, Domingos Ventura, coiteiro que já dera guarida a ele e Lampião. A esposa do homem disse que ele estava no campo com os filhos e retornaria em breve. Corisco pediu à senhora e suas filhas que fizessem café para os homens de seu bando, a maioria deles já embriagada. Ela atendeu e, bebida pronta, foi servi-los. Dadá (Sérgia Ribeiro da Silva, 1915 – 1994), cangaceira esposa de Corisco, ficou com uma nora e uma das filhas de Domingos na cozinha, conversando. Passado um tempo, um dos cangaceiros vem buscar as duas, a mando de Corisco. Dadá pergunta o motivo e ele responde que é para matar as duas.
Dadá acompanha-as até o pátio e lá se depara com a cena tétrica: Domingos, a esposa, uma das filhas e seus três filhos decapitados. Contrariada, interpõe-se às sobreviventes e, segundo relatos, diz firme ao marido, empunhando sua pistola: “Quem morreu, morreu, quem não morreu não morre mais. Essas ninguém mata”. Corisco aceita. Organiza uma festa para comemorar sua vingança, ali mesmo, tomando cachaça e dançando ao redor dos corpos, sobre o chão lavado de sangue. Pela manhã, manda um de seus homens levar as cabeças para o prefeito de Piranhas, a fim de serem entregues ao tenente João Bezerra, visto que a fazenda Patos era propriedade de um tio da esposa daquele. Isso mesmo, a fazenda que servia de esconderijo para os cangaceiros era de um parente de um policial militar que os caçava, vejam só.
Entretanto, Corisco errara o alvo de sua vingança, vitimando barbaramente uma família isenta de qualquer implicação na morte de Lampião. Fora justamente o fazendeiro Joca Bernardes (João Almeida dos Santos), o real delator do Capitão para a volante de Bezerra (denunciou que o coiteiro Pedro de Cândido o abrigara em sua fazenda), que falara a Corisco ser Ventura o traidor. Bernardes, ele também, um coiteiro.

Com a morte de Lampião o cangaço perdeu força. Corisco, em agosto de 1939, caiu numa emboscada policial na fazenda Lagoa da Serra, em Sergipe, tendo os braços destroçados por um tiro de fuzil. Em 1940 o governo Getúlio Vargas concedeu anistia aos cangaceiros que se rendessem. Corisco e Dadá já haviam deixado o banditismo e, em maio desse mesmo ano, iniciando uma fuga para estabelecerem-se incógnitos em outro estado, passaram pela fazenda Pacheco, localidade também denominada de Pulgas, na cidade de Barra Funda, Bahia. A morte de uma moradora os deteve por alguns dias no local a fim de participarem do velório e enterro, o que acabou sendo também fatal para o aleijado que, outrora, havia sido o Diabo Loiro.
O tenente Zé Rufino soube que um casal com as características do qual perseguia se hospedara temporariamente na fazenda Pacheco. No dia 25 surpreendeu os ex-cangaceiros por volta das 17 horas, dando-lhes voz de prisão e solicitando rendição. Corisco e Dadá tentaram fugir, sendo alvejados por uma rajada de metralhadora que rompeu os tecidos da barriga do primeiro, deixando suas tripas à mostra, e quebrou a perna da mulher. Cristino Cleto daria seu último suspiro algumas horas depois de ferido; Dadá teria de amputar a perna já na prisão, devido à sequelas do ferimento tratado inadequadamente. Um baú grande que era transportado pelo casal foi confiscado pela volante, onde possivelmente guardavam grande quantidade de jóias e dinheiro para financiar sua nova vida (*).

O tenente Zé Rufino, já aposentado com a patente de coronel PM, faleceu no dia em que completava 63 anos, 20 de fevereiro de 1969, de infarto, cuidando de sua fazenda de gado em Jeremoabo, Bahia, renomado como o maior caçador de cangaceiros do nordeste, mesmo não tendo matado Lampião. Aliás, creio que o Capitão teria feito melhor se deixasse o sanfoneiro José de Rufina animar em paz seus forrós por Pernambuco, não é mesmo?
Deixei uns detalhes fúnebres para o final, como curiosidade: a cabeça e o braço de Corisco foram retirados, passados alguns dias de seu sepultamento, e enviados para Salvador. A cabeça ficaria por décadas no Museu Antropológico Estácio de Lima, junto com as de Lampião, Maria Bonita, Antônio Conselheiro e outros. Só nos anos 1970 Dadá recuperaria todos os restos mortais do marido e enterraria novamente, completos. Já a sepultura de José Rufino não existe mais, pois, segundo depoimento do coveiro de Jeremoabo, a administração do cemitério não sabia de quem se tratava e, décadas depois, enterrou outra pessoa na cova, por cima do volante, como é costume por lá. Assim, perderam a referência de onde Rufino fora enterrado.

Nota:

* - Era praxe informal, conforme os estudiosos do cangaço, os comandantes e soldados das volantes dividir entre si o dinheiro e os objetos de valor (geralmente de ouro e prata) pegos com os cangaceiros abatidos, como forma de recompensa para além das promoções hierárquicas que cada cabeça cortada rendia. E tratava-se de altos valores, fortunas. Lampião, por exemplo, estima-se que, em valores atuais, somente numa cidade que pilhou tenha “arrecadado” uma cifra em torno de dois milhões de reais de comerciantes e fazendeiros. Esse dinheiro era usado para poupança, compra de terras, suborno de políticos e policiais, pagamento de coiteiros e compra de armas e munições, dentre outras destinações. No episódio em tela, o tenente Zé Rufino sempre negou, em entrevistas posteriores ao longo dos anos, ter se apropriado de valores pertencentes a Corisco.