Balões ao céu no entardecer

A vida pode mudar muito em um ano

A vida muda rápido. Em apenas um ano e dois meses a banca fechou, o jornal em que escrevia parou de circular e a proprietária da revistaria faleceu. Quanta mudança. Um mundo inteiro se foi.
No velório, um vento frio, estranho a um fim de tarde de fevereiro, soprava incomodando as pessoas, que trajavam roupas leves. Quando o cortejo saiu da casa mortuária para o cemitério ao lado, um céu azul escuro e translúcido, levemente avermelhado num ponto extremo a oeste, onde o sol se escondera, compunha o cenário fúnebre. Toda uma vida estava sendo depositada ali, dentro daquele caixão, no sepulcro: 79 anos, 65 deles dedicados à atividade comercial ligada à palavra impressa em papel: jornais, revistas, gibis, palavras cruzadas. Dos 65 anos, 42 ligados à banca.
Enquanto o pedreiro terminava de lacrar a abertura do local onde a falecida se juntaria eternamente ao marido que há décadas a aguardava, o violinista contratado pela funerária solava o hino do Grêmio, alusão à sua paixão tricolor. Ela, inclusive, comparecera, em 1954, à inauguração do estádio Olímpico, hoje desativado.
O vermelho sumira, agora apenas o azul dominava o céu. Familiares soltaram balões brancos que o vento frio fez subir e levou ao longe. Um belo e expressivo momento, apesar do pesar. Deu a volta e começou a ir embora, triste, acompanhando com o olhar os balões apequenarem-se gradativamente no horizonte. A comerciante, o estádio e a palavra impressa em papel sumiam, metaforicamente, junto com eles.

A vida pode mudar muito em um ano.