Escolher é viver: os “Oito Batutas”

A vida é feita de escolhas, algumas delas difíceis, pela qualidade das alternativas

Por João Adolfo Guerreiro 13/03/2018 - 13:36 hs
Escolher é viver: os “Oito Batutas”
Formação original dos "Oito Batutas"

Escolho, logo existo. Coisa boa ter a possibilidade de escolher, não é mesmo? Sinal que existe liberdade e opções. Pois na sexta-feira passada tive de escolher em qual programa noturno eu iria.

Eram quatro: primeiro, happy hour no B Café do Bonato Center, em São Jerônimo, com a dupla Gilberto Pradella (voz e violão) & Darlan Rambor (rabecão), só MPB da boa e muito bem executada; segundo, o Rodeio Estadual de Charqueadas; terceiro, show da banda Tramateia (um excelente repertório de rock nacional e gaúcho) no Garagem Rock Star, em Charqueadas; e, em quarto, a Noite do Samba no Salão da Aspec, na mesma cidade. Ó dúvida cruel, onde ir?

Bom, a vida é feita de escolhas, algumas delas difíceis, pela qualidade das alternativas. Decidi por partes: Pradella & Rambor eu já vira e com certeza teria oportunidade de rever; o Rodeio se estenderia por todo o final de semana; Tramateia eu já assistira três vezes (nunca canso do que é bom); Noite do Samba, talvez, não aconteça outra, eis que era um time de músicos que ajustaram suas agendas justamente para aquela noite. Assim, escolhi ir ao último.

Em dezembro, parte daquele grupo dera uma pequena canja num outro evento e foi muito bom. Agora o elenco estaria completo: Dias (vocal principal), crooner veterano, com muita estrada na noite; Lobão (contrabaixo), profissional; Molina (bateria), ex-profissional; Baresi (sax), graduado em Música no IPA; Alessandro (cavaco), fera; Ávila (surdo e vocal de apoio), firme e preciso; Marcelo (pandeiro e tamborim), sempre no ritmo; e Samuel (violão e vocal de apoio), rico nos acordes. Eram oito. Os “Oito Batutas”! Quem conhece choro, samba e o nome do conjunto onde tocaram Pixinguinha e Donga (autor do primeiro samba gravado no Brasil, Pelo Telefone - 1916), sacou que estou dando um baita elogio para os caras.

Eles abriram os trabalhos após as 22 horas e executaram um cardápio musical recheado de grandes canções, condizentes com o nome do evento. Lobão, Molina, Ávila e Marcelo mostraram uma cozinha coesa e bem temperada. O diálogo entre Baresi e Alessandro deu um toque refinado à harmonia. Falando nela, Samuel encadeou os acordes com fluidez e musicalidade. Dias, à frente, todo de branco, mostrou que experiência é tudo: cantou, interpretou e comunicou. Perfeito.

Mas bah tchê, grande noite, imensa Noite do Samba. O público delirou, cantando, dançando e aplaudindo a apresentação contagiante, tão contagiante que até o pequeno Benjamim, ainda nas fraldas e a passos trôpegos, entrava no palco dançando ao ritmo do samba e esticando as mãos para o violão e o cavaco (esse guri promete).

Tive de escolher, escolho e vivi “esse momento lindo”, como cantou o Roberto. Ah, a liberdade de escolha é a fé que faz crescer! Para finalizar, transcrevo uma canção do Dorival Caymmi que os “Oito Batutas” não cantaram, mas que estava na minha cabeça durante o show:

“Quem não gosta de samba / Bom sujeito não é / Ou é ruim da cabeça / Ou doente do pé / Eu nasci com o samba / No samba me criei / E do danado do samba / Nunca me separei / O samba da minha terra deixa a gente mole / Quando se dança todo mundo bole”.

Sempre na brincadeira e com todo o respeito, claro.

 

 

Foto: formação original dos Oito Batutas (1919): Em pé: Jacob Palmieri, José Alves Lima, Luiz Pinto da Silva e Pixinguinha. Sentados: Donga, Nelson Alves, Raul Palmieri e China