Carnaval, festa de e para pobre

Carnaval, festa de e para pobre

O Brasil não é um país pobre, mas, sim, desigual, com um povo pobre, onde quem pode pode e quem não pode nem mais se sacode, por ser pobre

Por João Adolfo Guerreiro 13/02/2018 - 10:56 hs

O que unificou esse imenso país, de início? A colonização portuguesa. Trouxe consigo uma língua, um modelo de Estado e uma religião (a católica), unificado-o de norte a sul. Depois, do começo do século XX pra cá, nosso período contemporâneo, a identidade nacional brasileira se resume no binômio samba e futebol. O primeiro surgiu no andar de baixo da sociedade, majoritariamente negro e pobre; o segundo, importado, classe média, branco e incluído. Ambos, contudo, caíram nas graças da massa, estendendo-se também, a partir de então, de leste a oeste. Somos a Pátria de Chuteiras, o País do Carnaval.

Em seu livro Uma História do Samba: As Origens, Lira Neto informa ter esse modelo de carnaval que hoje vemos (principalmente pela TV), o das “escolas de samba”, surgido no Rio de Janeiro, no bairro Estácio, há 90 anos, em 1928: Ismael Silva e outros moradores do local criaram o Grêmio Recreativo Escola de Samba (GRES) Deixa Falar, que levou esse nome por ser mais organizado que os blocos e os ranchos carnavalescos, o que permitia uma tolerância maior das autoridades e um “alívio” da polícia. Digno de nota: o primeiro bloco de carnaval brasileiro foi o carioca Cordão do Bola Preta, que completa 100 anos de atividade agora em 2018.

O samba venceu o preconceito racial e a exclusão social, tornando-se o maior produto cultural brasileiro, identidade nacional e amálgama, na “avenida”, de raças, credos e nacionalidades. Tudo, na folia, se mistura. Em parte, claro. Não sejamos ingênuos.

Existe a indústria do carnaval e do samba, produtos turísticos, que movimentam muito dinheiro. Ali, sim, de certa forma, todos se misturam, cada um como, financeiramente, pode. Mas e na festa que ocorre nas demais cidades do país, pequenas e médias, como é que se dá? E aqui no Rio Grande do Sul, especificamente, como é que é? Obviamente que não vai ser numa crônica que essas perguntas serão respondidas, mas algumas ideias podem ser alinhavadas, para início de conversa, deixando lacunas para um debate posterior.

Na Zero Hora do último fim de semana, está lá, na página 9: “Quase 80% dos municípios não apoiarão o carnaval”. A absoluta maioria das cidades gaúchas não apoia a maior festa popular brasileira! As justificativas mais citadas: outras prioridades e falta de recursos. Realmente, estamos numa das crises sazonais do capitalismo de mercado brasileiro e o dinheiro está faltando na esfera pública, em algumas cidades mais do que em outras. Isso é fato.

Entretanto, em municípios onde o carnaval gera divisas via turismo, ele está acontecendo com financiamento público. A maior parte das cidades que não investem são aquelas onde a festa é estritamente popular, circunscrita à população local. Assim, podemos dizer que quem perde com isso é o povão, a grande parcela da população gaúcha que, vivendo com aquele salário de subsistência que gira em torno do salário mínimo, não pode viajar durante o carnaval. Ou estou errado em dizer que quem tem um bom salário ou capital, gostando ou não da folia, geralmente viaja no feriadão? Vai para o carnaval carioca ou baiano, para a praia, para o campo, etc? Quem, via de regra, fica é quem não tem dinheiro, não é mesmo?

E essas pessoas, então, é que são atingidas pela falta de investimento público no carnaval, pois acabam sem a opção de lazer a que teriam acesso pelo “mecenato” estatal. Assim, embora não tenha o que objetar quanto a questão de que na falta de dinheiro se poupe em tudo, quanto a questão das “prioridades” eu contesto: como a qualidade de vida das pessoas que dependem da ação do estado, num dos países mais desiguais do planeta (o economista francês Thomas Piketty o afirmou no Fronteiras do Pensamento), podem não ser prioridade nos orçamentos municipais? E vejam que, no Brasil, pobre também paga imposto, e muito. Logo, também é contribuinte.

É claro que o samba e o carnaval têm de ter um movimento popular ativo em cada sociedade que justifique o investimento público, eis que um aporte de recursos visando criar artificialmente uma demanda em determinada comunidade é realmente um equívoco. Todavia, creio que não é o que acontece na maioria das cidades gaúchas e brasileiras.

 

Assim, espero que, ao fim de mais esse período de aperto nas finanças nacionais, o carnaval não seja relegado ao esquecimento pelas autoridades, como algo supérfluo. Qualidade de vida também engloba o lazer e a cultura, em qualquer país que pretenda um IDH da ONU satisfatório. O Brasil não é um país pobre, mas, sim, desigual, com um povo pobre, onde quem pode pode e quem não pode nem mais se sacode, por ser pobre.