JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Entre dois Gre-Nais

O tão desejado e histórico Gre-Nal pela Libertadores

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Entre dois Gre-Nais
Entre dois Gre-Nais

Em 2019 esperei muito pelo tão desejado e histórico Gre-Nal pela Libertadores, na semifinal do torneio, mas esse não aconteceu. Então, em 2020, quando saiu o sorteio para a primeira fase e Grêmio e Inter caíram no mesmo grupo, fiquei em grande expectativa para o dia 12 de março. Estava certo para ir no jogo, mas tudo mudou...

Começou esse lance da pandemia aqui no Brasil e eu resolvi não ir ao estádio. Naquele mesmo dia morreu a primeira pessoa de Covid-19 no Brasil, uma mulher. A partida foi um fiasco, teve desde brigadiano atropelando torcedor com cavalo até briga generalizada de jogadores em campo. Gol, que é bom, nada. Domingo, 27, fará 200 dias de tudo isso e tanta coisa ficou diferente... Dia 12 de março, 53 mil pessoas estavam na Arena; hoje à noite, o Beira-Rio será um gigante oco.

No dia 13 de março escrevi para o Portal a primeira crônica onde falei sobre a pandemia, ao abordar o jogo. "Sexta-feira 13 antecipada: 4x4 no Gre-Nal do coronavirus" (1), foi o título. De lá para cá, esse assunto ou foi tema ou pano de fundo de cerca de 90% de meus textos para o jornal. Normal, tratando-se de algo inédito e aterrador pelo qual estamos, todos, passando. Fala-se até de um novo normal que virá. De fato, hoje vivemos uma anormalidade transitória.

Lembro que, por essa época, um grande empresário do setor de alimentação disse a infeliz frase "o Brasil não pode parar só porque morrerão 5 ou 7 mil pessoas na pandemia", algo assim. Eu pensei: puxa, isso é uma Geral do Grêmio de gente morta! Hoje somamos 138 mil óbitos, quase três Arenas lotadas! Mas bah, não sabia de nada, o cara, era muita desinformação de muita gente sobre o que viria nos 200 dias seguintes. No domingo é provável que tenhamos já uns 140 mil brasileiros vitimados fatalmente, o que será como se, em média, tivessem morrido 700 pessoas em cada um desses 200 dias no país e 22 aqui no estado. Que horror, meu Deus, uma barbaridade. E poderia ser tudo muito pior, ainda, se a mentalidade do tal empresário tivesse sido a visão dominante no Brasil, o que, felizmente, não aconteceu.

Isso tudo entre dois Gre-Nais. E que importância tem o futebol num dia como hoje? Nenhuma! Acho bizarro futebol num tempo desses e surreal os caras fazerem minuto de silêncio antes dos jogos e depois vibrarem com os gols, num período em que centenas de milhares foram vitimados e centenas ainda morrem a cada dia. O que significa esse minuto de silêncio? Nada, pois nem era para ter futebol. Soa falso como uma nota de 3 ou de 200 reais.

Nada contra os profissionais do futebol e os torcedores, cada um segue sua vida como quer, não estou a dar lição de moral para ninguém. É uma situação tão maior que nós todos, essa, que quem sou eu para dar conselhos para alguém aqui? Só estou dizendo o que penso, trocando uma ideia, assim no más, tchê. A vida continua, sei. Todavia, para que ela continue mais ainda, o melhor seria parar com tudo o que é supérfluo, no momento. E manter parado até o que não é, como as escolas, por exemplo. Entretanto, deve haver quem ainda pense que o Brasil não pode parar só porque morrerão 150 ou 170 mil pessoas na pandemia.

(1) - https://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=6887240