JOÃO ADOLFO GUERREIRO |Os santos de junho

Santo Antônio (13), São João (24), São Pedro e São Paulo (29)

 

Em minha infância lá na Colônia as festas religiosas davam um colorido social ao ano. Começavam com a Festa de Navegantes, em fevereiro, com os barcos passando pelo Jacuí. Final de março, abril, a Páscoa, com os ovinhos de chocolate. Em junho, São João (imagem acima), com a esperada festa junina na escola Ramiro Barcelos, um barato! Depois, só a festa de Santa Bárbara, no início de dezembro, “lá na igreja de Charqueadas”, e o Natal, com a árvore, o presépio, as bolinhas, as luzes e os presentes, no encerrar do ano. E deu.

As festas juninas - na verdade era comemorada apenas a festa de São João. Era a mais divertida, dinâmica e social de todas, disparado, realizada na chamada “noite mais longa do ano” - é, na real, “quase”, mas a fama ficou. Começando pela fogueira, passando pela pipoca, pelo quentão, amendoim, rapadura e o casamento na roça, dentre outras coisas mais. Uma vez, em meu primeiro e único papel de protagonista nas artes cênicas, fui o noivo no casamento na roça. A noiva foi a Roselaine, não esqueço o nome, afinal, foi a minha primeira noiva! E essa relação com as festas juninas também começou, com o tempo, a chamar minha atenção para os demais santos de junho - nem sabia, por exemplo, que São Paulo possuía seu dia nesse mês.

São santos popularíssimos do catolicismo: Santo Antônio (13), São João (24), São Pedro e São Paulo (ambos dia 29). Santos fundamentais na origem do cristianismo. São João, o Batista, veio antes de todos, mesmo de Jesus, seu primo, até porque nasceu com a missão de anunciá-lo como o Filho de Deus, o Messias. Seu pai, Zacarias, ficou mudo até o seu nascimento, como castigo, pois duvidou do Anjo do Senhor quando esse lhe disse que teria um filho com Isabel, sua esposa, ambos com idade avançada. Assim, João é o único santo que é comemorado no dia de seu nascimento, não no de sua morte, como os demais.

Os santos surgem isoladamente ou em levas, frutos de um momento histórico ímpar. João Batista, Pedro e Paulo são os pioneiros, da primeira leva, do primeiro século da Era Cristã; já Santo Antônio é de mais adiante, do século XIII, anos 1200, e, embora português, é da mesma leva de onde surgiram São Francisco de Assis e Santa Clara, na Itália. Tempo santo fértil, esse. Tornou-se, no imaginário popular, "o casamenteiro", o que está longe de dar conta de toda a sua dimensão. Morreu jovem, tal qual Francisco, doente. Mas voltemos aos do século I.

No início era barra ser cristão, a perseguição era grande e a morte era o destino final, seja na cruz, por apedrejamento, fio de espada, decapitação ou devorado por leões. As reuniões eram escondidas. Todos nós sabemos dessas histórias. João Batista foi decapitado, Jesus crucificado, e Pedro e Paulo, embora não tenha nada no Novo Testamento sobre a morte deles, conta a tradição que ambos foram martirizados em Roma, no dia 29 de junho do ano de 67. Pedro, crucificado de cabeça para baixo, a seu pedido; Paulo, como era cidadão romano, teve o “privilégio” de ser decapitado.

Se João Batista é um dos principais coadjuvantes dos Evangelhos, Pedro e Paulo protagonizam o Ato dos Apóstolos. Paulo é mais citado que Pedro, embora esse seja igualmente um grande coadjuvante dos Evangelhos. Por outro lado, nas Cartas, 14 das 21 são dele; de Pedro, duas. Todavia, podemos afirmar sem erro que são as duas figuras centrais do cristianismo nascente no período posterior à crucificação de Jesus. Pedro, assim nomeado por Jesus - seu nome era Simão - recebeu aval do Cristo para ser o líder da sua igreja e, de fato, foi o primeiro papa. Paulo, todavia, foi uma guinada de 180° produzida por Jesus, quando não mais na terra.

Saulo de Tarso era judeu e cidadão romano, pois seu pai, um ricaço, comprara a cidadania. Saulo inicialmente era um terrível algoz dos cristãos, os perseguia a mando do Sinédrio. Aí temos o episódio da estrada para Damasco, onde o Messias o derruba do cavalo e o cega, perguntando “Saulo, por que me persegues?”. Essa epifania (a história tem mais detalhes, claro, mas vamos sintetizar) fez com que trocasse seu nome para Paulo e passasse a ser o maior divulgador da mensagem de Cristo pelo mundo, uma obra gigantesca e essencial que gerou frutos para os milênios que se seguiram. A conversão e a vida de Paulo foram realmente impressionantes, um milagre portentoso.

Eis, em breves palavras, sem deixar passar a oportunidade da data para mencioná-los, os santos de junho, ou, mais especificamente, os grandes santos de junho: Antônio, João, Pedro e Paulo. Homens de fé, fé viva e praticada sem concessões à serviço da obra do Senhor. Exemplares e referenciais.