JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Crônica para tentar falar de outra coisa que não aquilo

Vou falar então da camiseta do Joe Cocker

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Crônica para tentar falar de outra coisa que não aquilo
Joe Cocker


Hoje é sexta-feira e pretendo falar de outra coisa que não aquilo pelo que estamos todos passando. Tanto que não nomearei aquilo. Aquilo será aqui mencionado como Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, tipo assim o Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado do Harry Potter e que a maioria de vocês também sabe quem é. Aqui, o Aquilo (agora em maiúscula) não será nomeado, seguindo as recomendações médicas para saúde mental nesses tempos em que somos acossados justamente por Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.

Vou falar então da camiseta que o Joe Cocker usou em sua antológica apresentação em Woodstock, em agosto de 1969. É essa que está aí em cima. Vocês já devem ter visto essa foto, ela é famosa, uma das imagens símbolo do mítico festival. Eu adoro essa camiseta, queria uma igual. Só que elas, da forma que os ripongas as faziam, são, todas, peças únicas. Não vou explicar o processo aqui, deixo para quem tiver curiosidade pesquisar, basta saber que não tem como fazer duas iguais. Logo, para se ter uma parecida, somente se alguém se desse ao trabalho de reproduzir em tecido uma estampa copiada dali. Entretanto, não seria a mesma coisa, a textura seria diferente. Portanto, uma camiseta única para uma apresentação única. Tudo a ver.

Joe Cocker era inglês e, no filme do festival, aparece cantando uma versão de With a Little Help From My Friends, dos conterrâneos Beatles, uma das poucas canções deles cantada pelo baterista Ringo Starr. Uma grande versão, igualmente única! Ela está também no LP triplo de Woodstock, que eu tenho - presente do meu chefe -, é a terceira do lado três. Festival, canção, camiseta e apresentação únicas! Tetra único! Mas bah, tchê, te mete com os loco! Uma boa pedida para a sexta-feira é planejar rever no sábado ou no domingo o filme-documentário de Woodstock e ouvir o LP. Naquele tempo, não havia HIV e tampouco Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. “Ah, mas tinha a Guerra do Vietnan”. “Ah, mas havia a ditadura”. Tá legal, sei disso, mas essas coisas estavam distantes do pessoal, não tinha como você sair na rua andando para ir no supermercado em qualquer lugar do planeta e se contaminar com guerra ou ditadura e parar num hospital. Sem chances. Mesmo com guerra e ditadura, era um tempo melhor aquele em que Joe cantava “com um pequeno socorro dos seus amigos” numa fazenda cheia de gente disposta a viver três dias de paz, amor e música durante a Era de Aquário.

Agora nem podemos fazer um festival, pois a aglomeração de pessoas seria contrária às recomendações sanitárias de isolamento social contra o espalhamento do Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. E Aquilo é coisa que atinge não apenas, mas, principalmente, idosos, assim como Joe Cocker, Beatles e Woodstock é também coisa que faz parte do mundo de pessoas que tem entre 60 e 70 anos, nascidos no final dos anos 1940 e meados dos 1950 e que, por isso, foram contemporâneos deles. Os jovens de agora presenciam Aquilo, mas sem a pressão sentida por aqueles em que Aquilo pode fazer estragos consideráveis. Jovens, em regra, mesmo com exceções que confirmam a regra, são residual e indiretamente afetados por Aquilo. Já a geração de Woodstock, não.

E não somente ela. Os oitentões, noventões e cenzões de hoje, nascidos nas décadas de 1920 e 30, de quando o Grêmio ainda jogava no Fortim da Baixada lá no Moinhos de Vento, gente forte que passou por duas guerras mundiais e pelo fascismo genocida, também agora tem de encarar de frente Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Esses sim, passando por tudo isso - eis que “tudo passa, tudo sempre passará”, como na canção do Lulu Santos - provarão que o santo deles é forte, que seus anjos da guarda ficaram sempre alertas, em QAP QRV QSL total, sem QRN, QRM ou QRL! Ligadíssimos no QSO ou QTC do QRA protegido, esteja ele no QTH que estiver!

"As chances estão contra nós / mas nós estamos por aí / a fim de sobreviver / como um avião / que sobrevoa / a cidade em chamas” - Humberto Gessinger. Bom, cheguei ao fim da crônica. Se me foi impossível não falar sobre Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, pelo menos não citei seu nome e escrevi sobre uma porção de coisas as quais julgo interessantes e legais e espero que tenham curtido. E pude usar a foto do Joe Cocker com a sua camiseta estilosa em uma crônica aqui no Portal. “A vida pode ser maravilhosa”, não é mesmo, Ivan Lins? Um bom final de semana para todos, fiquem em casa e fiquem com Deus.