JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Com isolamento social!

Como abrir mão do isolamento em questão de vida ou morte?

Nas vezes em que estou sentado na frente da minha casa, observando rigidamente o isolamento social, assisto o movimento nas ruas. Até quarta ele ainda estava pouco, mas agora, depois da fala do presidente e da flexibilização nos decretos dos governos estadual e municipal, parece que o pessoal está se sentido liberado, com coragem de sair à rua. É o que vejo, quando estou confinado nesse meu pequeno pedaço de mundo no centro da cidade.

Fora os que estavam todos os dias por aí, agora enxergo muitos jovens risonhos, confiantes e saudáveis, e carros. E, pasmem, muita gente de idade. Quase ninguém com máscara. Para dizer a verdade, nessa tarde de quinta-feira, apenas duas pessoas, que passaram de carro em momentos distintos. Uma delas é um amigo e parou o carro para me cumprimentar, informando que ia num ateliê comprar máscaras. Um senhor que mora aqui perto, que sei que tem uns 70 anos e é diabético e cardíaco, saiu para comprar pão hoje pela manhã e, umas duas horas depois, foi pagar uma conta. Passou por mim e deu bom dia, muito simpático. Um veterano esteve na casa dele hoje e, também, uma amiga. Já outro senhor não sai de casa e caminha duas vezes por dia, uma hora de cada vez, dentro do seu pátio. Uma senhora que conheço está isolada em casa como num bunker, só uma filha vai lá e deixa as coisas para ela na porta, que ela esteriliza e leva para dentro.

Pela manhã cedo também olho uma senhora, deve ter também uns 70, que eu sei que é viúva, sem filhos e mora sozinha. Vai no supermercado fazer compras, no horário destinado a idosos e pessoas com doenças do grupo de risco. Que sorriso bonito e vivaz possui, também sempre me cumprimenta afetuosamente. Que escolha ela tem, não é mesmo, a não ser enfrentar esse mundo agora letal  Que coragem digna e educada tem essa mulher. Deus a proteja.

Percebo que em cidades, estados e no país, o interesse pelo econômico está prevalecendo sobre o da saúde na mentalidade de muitas pessoas. O grande público alvo da morte, os "10%", idosos e portadores de algumas doenças, são justamente os que, se o sistema de saúde saturar, serão preteridos no tratamento vital possível (respirador) em favor dos mais jovens e saudáveis por ela gravemente acometidos, pois esses últimos, com mais chances de sobrevivência, serão priorizados, que foi o que ocorreu na Itália.

Aqui no Portal de Notícias, vi postagem sobre o primeiro caso de morte registrado no RS pela Covid-19. Uma senhora de 91 anos. Minha tia-avó e madrinha morreu aos 101 anos, caminhando, falando e escutando, lúcida. Assim, quem pode garantir que, sem o contágio da Covid-19, ela não ultrapassaria a madrinha? Na minha família tem muita gente de idade. Hoje vi aqui o anúncio de outra morte, uma pessoa de 81 anos.

Sem o isolamento social creio que vai ser muito difícil controlar a propagação de um vírus com essa capacidade de disseminação, pelo que se observou até agora em outros países e pela fala de muitas autoridades sanitárias. Como assim, liberar as escolas? Resolver a propagação só com protocolos, álcool gel, água e sabão? O deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, defendendo a continuidade do isolamento social, disse em entrevista serem os investidores da bolsa, que estão perdendo dinheiro, a pressionar o governo federal. Para ele, os investidores devem correr seus riscos financeiros, não o povo correr risco de vida. Concordo. Falou mais ainda: "O que está faltando hoje para os brasileiros, para todos, é previsibilidade. Se o governo já tivesse resolvido a renda dos brasileiros mais simples, uma política de isolamento dos idosos nas cidades, se o governo já tivesse garantido a renda do emprego daqueles que ganham até cinco salários-mínimos - o teto do INSS, nós já teríamos garantido previsibilidade para a maioria dos brasileiros e com isso, todos estavam fazendo o isolamento, esperando os impactos da chegada do vírus e a cada semana avaliando o que deve ser feito". E isso vem de encontro também à preocupação com os pequenos empresários, com a economia. Não há como ignorar esse realidade econômica, mas também não tem como abrir mão do isolamento em questão de vida ou morte. Na rua, apenas os profissionais de setores chave para que o país não pare, todos muito bem protegidos e nenhum dos inclusos nos grupos sociais de risco trabalhando.

O que eu mais achei pertinente na fala dele foi: “Pedir uma liberação vertical sem a gente ter feito uma operação de guerra para proteger os idosos que vivem em várias comunidades, em todos os estados, me parece uma decisão focada em algo que não está sendo bem elaborado, bem construído e que não há uma preocupação com esses brasileiros que vivem em ambientes pequenos, com muitos parentes, muitos jovens, que certamente saindo para trabalhar voltarão para suas residências e contaminarão milhares de idosos brasileiros”. Exato. É um pouco o que eu tenho observado daqui do meu pequeno pedaço do mundo. Não vou citar aqui, mas ele faz algumas propostas econômicas com as quais concordo e que vocês podem conferir procurando no Google.

Coloco essas questões sem a intenção de polemizar ou politizar o fato, pois vejo que isso só agrava o problema, que é de saúde pública, de vida ou morte. As considerações do deputado Maia expresso apenas por entendê-las pertinentes ao debate sob a ótica de priorizar a saúde e, ao mesmo tempo, proteger economicamente as pessoas, que precisarão de dinheiro para manter a vida com alimentação e cuidados. Muitas pessoas, no quadro em que estamos, não terão como se isolar. A saída seria proteger a economia, ou seja. o salário e o lucro das pessoas, de outras formas, como Maia propôs, mas não relaxando agora o isolamento social (e perdendo quiçá a única chance de reduzir muito a disseminação), o que vai afetar justamente a saúde e a vida dos mais pobres, sem condições financeiras de se proteger adequadamente. O pessoal das favelas, só para citar um exemplo.

O que mais dizer? De minha parte, que continuem se cuidando e só saiam pra rua em caso de extrema necessidade. Sejam solidários e altruístas.

Que Deus ilumine e proteja a todos, em especial os profissionais da saúde: médicos, enfermeiros, pessoal da limpeza, todos eles. São anjos de carne e osso, instrumentos terrenos de Deus.