JOÃO ADOLFO GUERREIRO | De Bagé para as minas de Butiá

Até 8 de março na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre

A Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, estará até o dia 8 de março abrigando uma exposição que tem tudo a ver com a nossa região: Grupo de Bagé - os quatro. E isso se dá por dois motivos: o primeiro, diretamente, são as xilogravuras e aquarelas de Danúbio Gonçalves (1925 - 2019) mostrando a mineração na cidade de Butiá em meados da década de 1950 (imagem acima); o segundo, indiretamente, é a outra série do mesmo autor intitulada "Xarqueada", que retrata a atividade saladeril de Bagé, semelhante ao período do charque daqui de Charqueadas.

Só por esses dois motivos e pela visita à instigante construção situada junto à orla do Guaíba já vale a ida à Fundação, mas a exposição é mais do que isso: além da obra do bageense Gonçalves, traz também a de seus conterrâneos Glauco Rodrigues (1929 - 2004) e Glênio Bianchetti (1928 - 2014) e do santa-mariense Carlos Scliar (1920 - 2001) que, juntos, em 1951, criaram o Clube da Gravura de Bagé. E todos os quatro se tornaram nomes importantes das artes brasileiras, com reconhecimento internacional. Não foi pouca coisa.

Scliar, cujo nascimento completará 100 anos em junho, teve uma ativa carreira artística nacional e internacional, além de ser o diretor de arte da revista carioca Senhor de 1959 a 1964. Membro da Força Expedicionária Brasileira, manifestou um profundo compromisso político e social em sua vida e obra, faceta comum a seus pares do Grupo de Bagé. Morreu no Rio de Janeiro.

Rodrigues, outro artista do Brasil e do mundo, é considerado um dos maiores pintores contemporâneos brasileiros. Talvez um dos seus trabalhos popularmente mais conhecidos seja a série de aquarelas usadas na abertura e nas vinhetas da minissérie global O Tempo e o Vento (1985), o que podemos conferir numa sala específica da exposição.

Bianchetti foi, em 1960, a convite do antropólogo Darcy Ribeiro, para a nascente capital federal ajudar na implantação da Universidade de Brasília, eis que já era um artista de renome. Em 1964 foi preso pela Ditadura Militar. No documentário que é exibido na exposição, um especialista informa que a acusação de seu trabalho ser conforme o realismo soviético era indevida, eis que mostrava os trabalhadores em situação de miséria, ao contrário dos robustos operários dos artistas comunistas. "Se ele estivesse na URSS, seria preso, envenenado ou fuzilado por isso" - disse, ironicamente. Casado com a artista plástica gaúcha Ailema de Bem (Lavras do Sul), faleceu em Brasília.

Danúbio Gonçalves estudou no Rio de Janeiro e em Paris, mas passou a maior parte de sua vida no Rio Grande do Sul, produzindo arte, lecionando em universidade, ministrando cursos e dirigindo ateliers. Particularmente, o seu trabalho foi o que mais apreciei, para além das xilogravuras já mencionadas. Uma obra sua que quase todo mundo que vai a Porto Alegre passa em frente é o mosaico em azulejos brancos e azuis intitulado Memória da Epopeia Riograndense (de 2007, vide foto abaixo), ali na Estação Mercado do Trensurb. Danúbio faleceu em abril do ano passado, na capital, aos 94 anos.

Bom, para mais saberem, é só ir à Fundação Iberê Camargo de quartas a domingos, entre as 14 e 18h30. A entrada é franca. Aproveitem.