JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Crônica do Ônibus

Viajar de ônibus no verão deveria ser um direito constitucional

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Crônica do Ônibus
Viajar de ônibus no verão deveria ser um direito constitucional

 

Viajar é uma viagem, não é mesmo? Especialmente se for de ônibus. Adoro!

A gente senta na poltrona e vai admirando a paisagem despreocupadamente. O motorista é Buda, nos conduzindo ao caminho desejado. O ar condicionado é o Nirvana. Ah, o ar condicionado. Já contei essa história, mas vou repetir pra quem não sabe: Deus inventou o sol, a luz e o vento. O Coisa-ruim foi lá e meteu o calor no planeta. Vendo isso, Deus enviou um anjo que inspirou a criação do ar condicionado. Deus não joga, mas escala e apita.

Podemos escrever enquanto viajamos, como estou fazendo agora. Podemos ler um livro. Usar celular ou notebook. Fechar os olhos e imaginar que se é o lateral-direito do Grêmio cruzando bolas na cabeça do André Balada e dizendo "Toma aí, cara, faz o teu nome e limpa a tua barra que acho que tu vai ficar por aqui mesmo". A gente pode também dormir e sonhar com... Peraí, não preciso revelar meus sonhos aqui, é muita exposição.

Viajar de ônibus no verão deveria ser um direito constitucional de todo o cidadão. O mundo se divide entre os que passam fome e os que comem, entre os que possuem acesso a saúde e os que não, entre os que frequentam uma escola de qualidade e os que não e entre os que viajam durante o verão, estando de férias ou de folga nos findis, e os que ficam em casa. E também entre os banguelas e os que tem dentes. Nesse caso, falta de tecnologia não é, pois o homem já foi à lua e os brasileiros, em particular, já construíram Itaipu. Se fizeram essas coisas, podem fazer tudo. Logo, existir gente desdentada em pelo século XXI é somente um problema político e econômico, o que mostra o egoísmo e a falta de empatia que grassam em nossa sociedade. E ainda tem os que defendem isso como natural! De repente até aparece um por aqui para dizer isso num comentário. Como dizem, não há o que não haja e a gente morre e não vê nem 10% nesse mundo de Deus corrompido pelo homem.

Viajar de busão, reclinar a poltrona, pensar e escrever, enquanto o Buda conduz. O Nirvana. Adormecendo chegamos mais rápido ao destino. Se acordamos, perguntamos ao companheiro ou companheira de viagem: Onde estamos? Já chegamos? Isso tudo dá para fazer tranquilo indo de ônibus. Existem as desvantagens, claro. Quem vai de carro para onde quer pelo caminho; de busão, não. Uma questão de gosto e escolha. O gosto é o regalo da vida, que é feita de escolhas. Sabedoria popular. Escolho ônibus porque gosto. Eu e meus amigos do café.

Dia desses, conversando pela manhã na lancheria da antiga rodoviária, percebemos algo em comum além do gosto pelos cafés e pelos pastéis da dona Idelvira: nenhum dos cinco possui carro. Três por escolha, um porque não pode e o quinto tem, mas nunca usa, então é como se não tivesse. Portanto, somos a confraria dos sem carro. Carro individual não é necessidade e tampouco luxo, é um conforto e uma facilidade que alguns apreciam e outros não. Necessidade ele é apenas para quem mora em local ermo ou para os que trabalham em profissões que o exijam, como os taxistas, por exemplo. Concluímos que nunca deixamos de ir a um lugar que quiséssemos ou precisássemos por não termos carro. Simples assim.

Estamos chegando! Céu, sol, sul, terra e cor, azul, da cor do mar! Momento de terminar essa crônica e descer do ônibus, não esquecendo de agradecer ao Sidarta Gautama pela ótima viagem que fizemos em Nirvana.