JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Sexta-feira 13: e aí, cinco?

Cuide se um gato preto cruzar a estrada e passar por debaixo da escada

Hoje é sexta-feira 13. Antes de sair para trabalhar, cuide se um gato preto cruzar a estrada e passar por debaixo da escada. Se isso acontecer, vai por mim: meta um atestado e fique em casa. Atestado preventivo contra acidente de trabalho. O CID será por algo do tipo neura por superstição patológica. Chegues no consultório do psi cantando em altos brados, olhos arregalados, "Vira vira vira, vira vira vira homem vira vira, vira vira lobisomem, vira vira vira" que pode colar, vai por mim. É antiga essa, mas ainda cola de vez em quando. Se for com psi com clínico geral, tu vai ter de inventar outra, que clínico geral gosta de novidade, não vai te liberar um atestado por qualquer encenação canastra que cheire a falcatrua assalariada.

Sexta-feira 13 é fogo mesmo, minha gente, não é coisa apenas de calendário, é batata. Batata quente! Pepino! Moranga de pescoço! Abacaxi! Abacaxi enlatado com prazo de validade vencido. Ah, e não esqueça disso por nada deste mundo: se por acaso comer uma melancia hoje, não beba leite. Numa sexta-feira 13 é morte certa! Muito cuidado, muito cuidado. Todo o cuidado é pouco numa sexta-feira 13.

Veja o Brasil, por exemplo. Sabes o que aconteceu na sexta-feira 13 de dezembro de 1968 em nossa pátria amada, salve, salve? O Ato Institucional número 5, da Ditadura Militar. Sim, esse mesmo sobre o qual o filho do presidente, o ministro da Segurança Institucional e o ministro da Economia estão falando, meio que saudosos, mesmo que se digam "democratas" e "liberais". Pois esse troço foi promulgado numa sexta-feira 13, acredita? Não sei se foi por acaso ou se foi intencional da parte dos generais ditadores, mas que foi numa sexta-feira 13, isso foi, pode pesquisar no Google. Há exatos 51 anos.

O Marquito do SBT vai estar no parque hoje, aqui em Charqueadas. Acabou de passar um carro de som aqui na frente de casa anunciando. Será que ele vai ficar rouco na hora? Sei lá, show na sexta-feira 13, dia de azar. Ele até pode fazer uma piada, já que é humorista: "E AÍ, cinco?" Quem não souber responder vai preso pro quartel, por não saber marchar direito e ser cabeça de papel. E se o quartel prender fogo e São Francisco (não sei se o de Paula ou o de Assis) não der o sinal, quem acudirá a bandeira nacional? O general-presidente-ditador do AI 5, o gaúcho de Taquari Costa e Silva, é que não vai ser, pois ele já está há muito tempo na caserna do além. Talvez o Delfim Netto, que atualmente escreve sua (quinta) coluna na canhota Carta Capital, embora estivesse na reunião daquela sexta-feira 13 e aprove até hoje o Ato destro.

O Brasil é um país folclórico e maluco mesmo. Por aqui os comunistas gostam de democracia e os liberais de ditadura, principalmente os liberais de formação econômica. Mas não a ditadura do proletariado, e sim a da burguesia. O Cazuza, por exemplo. Ele cantava que a burguesia fede. Como assim? Os burgueses e as burguesas são cheirosos, usam perfume francês! A "burguesinha burguesinha burguesinha burguesinha burguesinha" do Seu Jorge (ele canta cinco vezes a palavra, sacaram?) é cheirosa e tem pele macia. Ah, por falar em França, lembrei do De Gaulle (*), general e presidente francês: "O Brasil não é um país sério". Não sei se ele realmente falou isso, se é fake news jurássica ou não, todavia ficou para a história a frase que lhe é atribuída.

Bom gente, era isso, já dei sopa demais para o azar nessa crônica, correndo o risco de ter uma indigestão. Tomem muito cuidado nessa sexta-feira 13. Às 13 horas e 5 minutos fiquem muito alertas. Sem poltrona 13, sem 13° andar. Não esqueçam que sexta-feira é o quinto dia útil da semana. O quinto, sacaram? Sem poltrona 5 e sem 5° andar também, por precaução.

E aí, cinco?

(*) - O nome completo do De Gaulle era Charles André Joseph Marie de Gaulle. Cinco nomes, sacaram? Logo, muito cuidado com o 5, igualmente.