JOÃO ADOLFO GUERREIRO | A centenária Banca do Holandês no Mercado Público de Porto Alegre

Em 2014, a Seleção da Holanda jogou uma partida de Copa do Mundo em Porto Alegre e a banca chamou a atenção da holandesada concentrada no largo Glênio Peres

O Mercado Público do Porto Alegre fez 150 anos dia 3 de outubro. Na quarta-feira, uma de suas bancas mais tradicionais, a do Holandês, fez 100 anos. Saiu notícia nos grandes jornais da capital. Fui lá dar uma conferida, pela tarde.


Os clientes por ali, um músico tocando sax, aperitivos, bolo e o parabéns a você. Imagina, 100 anos, sempre no mesmo local dentro do Mercado Público? Aqui em Charqueadas não tem nenhum prédio centenário, até onde eu sei, quanto mais um estabelecimento comercial tão antigo! Ao lado tem uma outra, a Banca 26, que também é de 1919, mas parece que já mudou de lugar dentro do Mercado. Não são os mais antigos estabelecimentos dali, pois o Restaurante Gambrinus é de 1889, logo, fez ou fará 130 anos.

A banca do Holandês foi fundada pelo, obviamente, holandês Dirk Van Den Brul, que veio para o Brasil fugindo da crise europeia do início do século passado. Ia pensar ele que, em 2014, a Seleção da Holanda jogaria uma partida de Copa do Mundo em Porto Alegre e a sua banca chamaria a atenção da holandesada concentrada no largo Glênio Peres, virando notícia no seu país de origem? A foto acima mostra isso.

100 anos. Não é muito tempo, para o mundo. Para uma pessoa, é. Na manhã do dia anterior fui ao enterro de um conhecido de 36 anos, gente boa, pai de família, que morreu de leptospirose. Bah, um horror ver um homem tão jovem partir assim. Pobre família, uma lástima. O que são 36 anos? Quase nada, num país com expectativa de vida de 73. Um ciclo de vida incompleto, encerrado antes do tempo. Como foi o de algumas mulheres da exposição “De Peito Aberto”, que está acontecendo no segundo piso do Mercado. Aliás, recomendo-a. São fotos de mulheres e homens que tiveram de lidar com o câncer de mama. Algumas sobreviveram, outras não. 100 anos é para poucos. Meus avós maternos morreram com 41. Minha madrinha e tia-avó paterna durou 101. Era de dezembro de 1912, anterior a banca do Holandês. Comprava lá, inclusive.

O tempo e o vento. Está um ventinho bom aqui na frente de casa, escrevo olhando os carros e as pessoas irem e virem ao fim de tarde, com os cachorros e as gatas em volta. Cachorros e gatas, pois esses duram mais por aqui, visto que não saem do pátio. Os gatos machos tem vida curta, pois se aventuram, imprudentes, pela rua movimentada da frente. Nenhum de nós com certeza vai durar os 101 da madrinha ou os 100 da Banca do Holandês, embora seja bem provável que, na maioria, completemos o ciclo da vida, envelhecendo. O Botafogo já conseguiu, a Coruja já está quase lá. Creio e espero estar no caminho, junto com a Ponte Preta, a Vulcana e a Porto Alegre. Vai ser difícil eu ir nos 150 anos da Banca do Holandês, mas nos 130 ainda espero estar vivo, bem e aposentado para pegar um busão e novamente prestigiar seu aniversário. Se estiver, vou escrever outra crônica aqui no Portal, prometo.

Está passando o carro do Ari do Picolé, agora, anunciando o seu produto. O ventinho começa a ficar frio. Hora de se arrumar para ir no jantar do Consulado do Grêmio, no Clube Tiradentes. Bom findi pra todos.