O tempo virou e a temperatura caiu com o vento

Um dia bom para escrever uma crônica, enquanto o vento continua lá fora

Fui passear ontem em Porto Alegre e enfrentei um calor daqueles, pela manhã. Sábado, então, nem se fala! Hoje acordo lá pelas sete horas e ouço aquele barulho característico do vento. Olho pela janela: mas bah, virada total do tempo, parecia o Grêmio tocando 2x1 no Palmeiras lá no Parque Antártica - aliás, nome condizente com a mudança de temperatura verificada.


"Pelas alamedas de ciprestes, vento forte, chuva fraca, pedra gélida no inverno" - lembrei da canção do Alberto André, "Caminhando por aí", ao meter o pé na porta de casa para ir comprar um jornal na lancheria da Dona Idelvira e ver as folhas das árvores revoltas pelo vento frio, mesmo sendo primavera de quase 40 graus há apenas dois dias. Olho para a casinha do cachorro e o Botafogo está lá, todo encolhido. Faz festinha quando me vê, chamo-o, mas ele não vem. Mas bah, tenho de lhe dar um desconto, pois mesmo que não seja um frio de renguear cusco, já tá veterano, 12 anos, um idoso, praticamente. Inclusive as gatas, que são jovens, estão amorcegadas na área de serviço.

Que doideira, né, essas mudanças extremas de tempo? Até o Botafogo deve estar pensando isso, lá nos seus íntimos de canino. E não é apenas ele, pois alguns dos amigos de café da manhã igualmente não apareceram. Devem ter, também, ficado entocados em suas residências. Eu não fiquei, sou cachorro vira-latas rueiro, ainda em idade viril, eh, eh, eh, eh. Só o Bicheiro, que é um idoso de fato, deu as caras, cabra macho que é, a fim de jogar (e perder) nos cavalos. Tudo isso culpa da temperatura...

Ela caiu! O tempo virou e a temperatura caiu com o vento. O vento derrubou a temperatura como se ela fosse uma amazona montada no tempo, supreendida pelo movimento repentino deste (em azar análogo ao do Bicheiro). Pelo menos era exatamente isso que eu pensava quando ouvia tal expressão na minha infância. E, nessa época, minha mãe não me deixava sair pra rua, então eu também ficava entocado em casa dando vezo a minha imaginação infantil. - Pobrezinha da temperatura! Será que ela se machucou, mãe? Ah, faz décadas, isso. Agora minha mãe é que está velha e não pode sair de jeito nenhum num dia como esse, de virada de tempo. Ela não me deixava sair porque eu era muito novinho, hoje não pode sair porque já está muito velhinha!

Todavia, é um dia bom para escrever uma crônica, enquanto o vento continua lá fora, acantonando o Botafogo na casa dele. Ele e a minha mãe já não são mais os mesmos. O tempo, cavalo xucro indomável, galopa para todos...