Coringa

Principal vilão da DC é apresentado em filme violento, realista e envolvente

Por Filmes & Séries - Marcelo Figueiró 11/10/2019 - 08:29 hs

Há anos Hollywood vem se aprimorando na arte de desconstruir personalidades. Existem vários filmes sobre isto. Entre estes podemos citar “Dia de Fúria” (1983). Nele um pai tensionado pela realidade do dia a dia solta toda sua violência sobre Los Angeles. Outra obra com tema parecido é “Clube da Luta” (1999). No longa um jovem executivo vai se entregando a um mundo de violência para recuperar seu lado selvagem. Na ficção científica, o melhor exemplo de desconstrução é o de Anakim Skywalker, de Star Wars (1977 – 2019). O personagem inicia a segunda trilogia da saga como um menino dócil. A perda da mãe e a pressão da doutrina Jedi acaba o transformando no Lorde Sith, Darth Vader. No mundo dos super-heróis nunca havíamos presenciado este fenômeno da entrega de um personagem para o mal. Pois agora a DC/Warner nos traz o polêmico filme “Coringa”, sobre a origem do palhaço do crime, em uma história solo, onde é explicado como um péssimo comediante acabou se tornando o pior inimigo do Batman.

PIADA TRISTE

No filme do Coringa somos apresentados a Arthur Fleck. Este é um comediante fracassado que vive na distante década de setenta, em uma Gotham City extremamente realista, nunca antes mostrada no cinema. Fleck leva uma vida decadente cuidando da mãe em um bairro pobre e sujo da cidade. Para conseguir seu sustento integra uma agência de palhaços que presta serviços como animar hospitais e promoções de lojas de eletrodomésticos. A vida não é fácil para Arthur, que é constantemente desrespeitado pela sua profissão. O palhaço seguidamente é espancado por gangues de rua, que consideram esta violência uma simples brincadeira. Para piorar, o personagem sofre de “afeto pseudobulbar”, uma doença que o faz rir sem parar, quando está em situações de risco, ou momentos que o deixam nervoso.



AS MÃES SÃO FELIZES

Em um estado decrépito, a mãe de Arthur tem uma solução para salvar a vida da família Fleck. Ela deseja que o filho entre em contato com seu antigo patrão, Thomas Wayne, para que este os auxilie a sair da penúria. No entanto, o encontro do comediante com os Wayne não vai bem. O milionário acaba negando auxílio e isto faz acender uma fúria enorme em Arthur. Enraivecido, o Coringa devolverá todo este desrespeito para a sociedade que o oprimiu. As agressões, dores e rejeições vão fazer que Arthur entre em uma espiral sem retorno de ódio e loucura que o levará a evoluir de vítima para o criminoso mais sádico e cruel que Gotham City já conheceu.

NARIZ DE PALHAÇO

Quando foi anunciado o filme do Coringa, no início do ano, muita gente torceu o nariz. Parecia impossível criar um mundo a parte na DC, diferente do universo integrado da Marvel. Ao aparecer as primeiras fotos, elas aumentaram a insegurança do público. A maquiagem do novo Coringa era completamente diferente do que já havíamos visto em outros filmes e gibis da editora. A DC fez estes críticos engolirem suas palavras ao finalmente apresentar a película. Embora barato, o filme, é uma das obras mais complexas, sobre o mundo dos quadrinhos. O diretor, Todd Phillips (Nasce Uma Estrela, 2018), resolveu abdicar dos efeitos especiais espalhafatosos deste tipo de película e criar um enredo com os pés cravados no chão, apresentando o que levaria uma pessoa comum a se tornar um serial killer como o Coringa.



REALIDADE SEM GRAÇA

Para isto o diretor colocou o personagem na década de setenta, e inspirou sua estética em filmes como Taxi Driver (1976), Laranja Mecânica (1971) e as dezenas de dramas de máfia da mesma época. Quem assiste o filme percebe que seus idealizadores não pensaram em fazer um simples filme do inimigo do Batman. Na verdade, primeiro se pensou o perfil psicológico do personagem e a jornada que é preciso para se quebrar um homem. Após isto, se colocou leves pitadas da história do Coringa, em meio ao enredo. Desta forma conseguiram atingir dois públicos distintos, adoradores de dramas, que estão afastados do cinema, mas influenciam a crítica, e nerds que invadem majoritariamente as salas de projeção, em todo mundo, atrás de personagens de gibi. Filme cabeça mais super-heróis só podia gerar este sucesso gigante.

MONTANDO O CIRCO

Fora a desconstrução, existem outros motivos para assistir Coringa. Estes vão desde as locações, que trazem com perfeição uma Gotham decadente da década de setenta. Os cenários são sujos e empobrecidos como os filmes de Nova York desta época. Também está muito boa a interpretação de Joaquim Phoenix, como Coringa. O ator consegue evoluir na loucura de uma forma muito diferente de outros Coringas, já apresentados no cinema. O personagem que inicia o filme é completamente distinto do vilão que chega ao seu final. A sua risada se transforma absurdamente neste processo, evidenciando a metamorfose do personagem. Por último a violência da fita é bem posicionada. Você consegue compreender o porquê de o palhaço avançar em sua derrocada. Embora o sangue, tiros e socos sejam angustiantes, e até discutíveis, eles são importantes para o espectador entender o que levou Arthur Fleck a ser tomado pela loucura.

RI MELHOR...

Coringa é um marco para o cinema, com um filme sobre quadrinhos sendo apresentado de uma forma realista como nunca vimos antes. O engraçado é que neste ano a Marvel conseguiu a maior bilheteria da história do cinema, com Vingadores Ultimato. Por causa disto, o estúdio estava iniciando a campanha pelo Oscar para seu blockbuster. Exatamente neste momento, seu principal concorrente, surge como pretendente a estatueta, com Coringa. Este é um filme extremamente barato, produzido pela adversária da Marvel nos quadrinhos, a DC Comics. Independente da briga entre as duas editoras/estúdios queremos mais filmes como o Coringa. Desejamos películas que respeitem os quadrinhos, mas que sejam inteligentes em agregar novas temáticas, formatos e públicos. Vale tudo para aumentar a bilheteria das obras de heróis ou vilões. Se o palhaço conseguir derrubar Os Vingadores no Oscar realmente será hilário. Afinal a vitória deve ser para quem consegue o melhor resultado, com as armas que dispõe. Como diz o ditado repetido pelo Coringa: “Ri melhor quem ri por último”. Nós certamente nos divertiremos mais ainda com esta briga de boa qualidade no cinema de quadrinhos. Assim, aguardamos ansiosamente a próxima piada.

ELENCO, CITAÇÕES E REFERÊNCIAS

Arthur Fleck / Joker - Joaquin Phoenix, Ela, 2013
Penny Fleck  - Frances Conroy, Mulher
Gato, 2004
Murray Franklin - Robert De Niro, The Irishman, 2019
Sophie Dumond - Zazie Beetz, Deadpool 2, 2018
Thomas Wayne - Brett Cullen, Batman: O Cavaleiro das Trevas, 2012
Alfred Pennyworth - Douglas Hodge, Operação Red Sparrow, 2018
Bruce Wayne - Dante Pereira-Olson (Apresentando)