JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Legalidade, um filme que deve ser visto

Ninguém, na realidade histórico-social humana, vem do nada para lugar nenhum, tudo é processo

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Legalidade, um filme que deve ser visto
O filme centra a narrativa no fio condutor de um triângulo amoroso

Ontem fui a Porto Alegre assistir ao longa metragem Legalidade, que aborda o movimento pelo cumprimento da Constituição, desencadeado pelo então governador Leonel Brizola (1922 - 2004) em agosto de 1961, a fim de garantir a posse do vice-presidente João "Jango" Goulart (1918 - 1976), seu correligionário no PTB e cunhado, após a renúncia do presidente Jânio Quadros (1917 - 1992).


Os grandes empresários, junto com os militares, não queriam que Jango assumisse, pois o consideravam "comunista". Imagina, o Jango, que era latifundiário! Mas como o que sempre vale é o intere$$se dos grandes e, ainda por cima, o vice está de viagem protocolar pela China comunista, a versão esdrúxula contava mais do que o fato obviamente ululante. Brizola, entretanto, não aceitou o cachorro, disse que não se dobraria a um golpe dado por telefone e mobilizou o povo e a Brigada Militar. O general comandante do III Exército ficou inicialmente em cima do muro, mas obedeceu a Brasília ao fechar as rádios locais para abafar a voz do governador. Esse, por sua vez, requisitou os transmissores da Rádio Guaíba, levou-os para os porões do Palácio Piratini e criou a Rede da Legalidade. É, em síntese, a história que está nos livros.

Para quem foi contemporâneo do governador Brizola, ver o recentemente falecido ator gaúcho Leonardo Machado interpretá-lo nos faz sentir falta do sotaque carregado característico do político, embora Machado se saia muito bem no papel. Entretanto, o filme centra a narrativa no fio condutor de um triângulo amoroso envolvendo a personagem Cecília, interpretada pela atriz Cléo Pires, com dois irmãos, um guerrilheiro e, o outro, jornalista. Já no início, pela escadaria do palácio acima, a gente vê que os atributos físicos da atriz serão explorados pelo diretor Zeca Brito. E o são mesmo, em algumas sequências "muy calientes", mas nada que vulgarize o filme.

Olhei o filme no Guion Center, no Comercial Nova Olaria. Só havia pessoal de mais idade na sessão das 14h15. Tá ok, o público do Guion é de gente mais veterana mesmo, mas quando vi em 2012 o documentário de Camilo Tavares O Dia Que Durou 21 Anos, sobre a influência americana no Golpe de 1964, no Espaço Itaú, que fica num shopping badalado da capital, a faixa etária da plateia era a mesma. Onde está o interesse dos jovens de hoje, para além das telinhas dos celulares? Deveriam assistir a um filme como Legalidade, para, conhecendo o seu passado, entenderem o seu presente e perceberem que o seu futuro está comprometido, principalmente no que tange ao mundo do trabalho. Ninguém, na realidade histórico-social humana, vem do nada para lugar nenhum, tudo é processo.

Nesse sentido, Legalidade é um filme obrigatório para aqueles brasileiros que nasceram já sob o contexto da modernidade líquida de Bauman. Uma obra sobre o passado que fala muito sobre o presente e o futuro. Na história, que todos conhecem (conhecem mesmo?), sabemos que o general resolve ficar do lado do governador e o golpe gora, pois os golpistas de antanho preferiram fazer um acordo constitucional a enfrentar os 120 mil soldados do III Exército numa guerra civil.

Recomendo Legalidade, um filme que nos dá a impressão de tratar de fatos ocorridos recentemente e de que o Piratini já foi bem melhor ocupado: era galo cinza, o Brizola. Está em cartaz também nos cinemas GNC Moinhos, Espaço Itaú, Sala Paulo Amorin e Sala Eduardo Hirtz. Mas indico o Guion, que fica num espaço legal e que possui uma livraria bem interessante.