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Região Carboífera,terça - feira, 2 agosto, 2011
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MAIS APENADOS
Complexo prisional de Charqueadas passa a receber presos de Porto Alegre e Região Metropolitana

Rodrigo Ramazzini e Viviane Bueno

A decisão judicial da Vara de Execuções Criminais (VEC) do Tribunal de Justiça (TJ), que estabelece um teto máximo para o número de apenados que o Presídio Central de Porto Alegre pode abrigar, respingou no complexo prisional de Charqueadas, que passará a receber mais presos.
Conforme uma determinação da Justiça, tomada há 16 anos, mas que só agora está entrando em vigor, desde ontem a quantidade de detentos não poderá exceder o número de 4.650 no Presídio Central. A decisão foi tomada levando em conta questões sanitárias, como de esgoto e água.
Até a última sexta-feira, a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) tentou a prorrogação do prazo fixado pela VEC em junho, de que a partir de 1º de agosto, o presídio da Capital não poderia alojar mais presos do que o estipulado, com o argumento de que ações estão sendo realizadas para a criação de vagas no sistema prisional. No entanto, o juiz Alexandre Pacheco não acatou o pedido e manteve a intervenção judicial.
Como alternativa para driblar a decisão da Justiça, a Susepe adotou a medida de transferir os novos apenados para o complexo prisional de Charqueadas, principalmente para a Penitenciária Estadual de Charqueadas (PEC) e para a Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas (PMEC). Implantando um sistema diário de transporte, a Susepe procederá assim toda vez que alguém for preso na Capital ou na Região Metropolitana. Primeiramente, o preso será levado até o Presídio Central, passará pelo setor de triagem, onde não poderá ficar mais de 12 horas, e, posteriormente, será transferido para algum presídio do complexo de Charqueadas.
A Susepe não revelou quantos presos serão transferidos em um primeiro momento de Porto Alegre para as casas prisionais do complexo. Mas, para se ter uma ideia da quantidade, é sabido que, em média, o Presídio Central recebia 22 novos presos por dia.

Medida será monitorada
De acordo com o juiz Alexandre Pacheco, a decisão da Susepe de transferir os presos para Charqueadas será monitorada pela VEC e, dependendo do resultado apresentado, semelhante intervenção judicial tomada no Presídio Central poderá ser adotada no complexo de Charqueadas.

Situação atual já de lotação
O complexo prisional de Charqueadas já sofre com o problema de superlotação nos principais presídios, que só será agravada com a chegada de novos presos. Veja a realidade de cada casa prisional:


Estrutura permanece igual
De acordo com a assessoria de imprensa da Susepe, mesmo com a decisão de transferir presos para o complexo de Charqueadas, as casas prisionais do município não receberão qualquer reforço de pessoal ou de viaturas. O mesmo afirma a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança do Estado em relação à Brigada Militar.

As consequências para o Complexo de Charqueadas
Para o Tenente Luciano Brilhante, do 28º BPM de Charqueadas, as consequências do excedente de detentos do Presídio Central ser encaminhado para Charqueadas acarretarão em inúmeros problemas para o município.
- Além da superlotação dos presídios, haverá a elevação no número de visitas circulando no município, o que poderá resultar em um maior número de pequenos delitos na cidade. Também, tem o risco no transporte dos presos -, afirma.
O tenente ressalta, ainda, se vier novos presos para o regime semi-aberto, a tendência é que aumentem o número de fugas e, consequentemente, de recapturas. Outra preocupação de Brilhante é em relação ao efetivo policial. Atualmente, o quadro de policiais militares já sofre pela carência, e, com o aumento da população carcerário poderá haver a necessidade de reforçar a guarda externa dos presídios, que é feita pela Brigada Militar, o que careceria de um remanejo dos policiais que fazem o monitoramento pelas ruas da cidade para as casas prisionais.
- Aumentará o trabalho e o efetivo continuará o mesmo. Nossos problemas não são poucos e a tendência e que a situação piore ainda mais. Este é um problema em todo o Estado, ao invés de inchar o Central, irão inchar o complexo penitenciário de Charqueadas, - declara.

Um novo Presídio Central em Charqueadas
O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do RS, Flávio Berneira, acredita que a situação de encaminhar os detentos do Central para Charqueadas penaliza duas frentes de trabalho.
– A primeira, atingirá diretamente os servidores, pois o risco o número expressivo de presos coloca em risco o agente penitenciário. Pagam a conta pela falta de planejamento do Estado. A outra frente é a super concentração de presos no município, que chega a quase cinco mil detentos, - enfatiza Berneira.
Para ele, outro agravante será o excessivo deslocamento de apenados, entre Porto Alegre e Charqueadas.
– Há um risco bastante elevado nisso e nós temos certeza, que a situação ficará ainda mais grave. O que acontece é que estão transferindo o problema de um local para outro. É um novo presídio Central em Charqueadas, sentencia o presidente.
Berneira finaliza ressaltando que enquanto não houver a construção de novas casas prisionais, com alto investimento em tecnologia, a situação tende a piorar com o passar do tempo.
- Os municípios apresentam uma grande resistência para abrigarem penitenciárias, um alto grau de insatisfação. Mas a construção de novos complexos, investimento e contratação de servidores são indispensáveis, conclui.

Até o final do ano, mais 1200 vagas na Região Carbonífera
A chegada de novos presos não deve parar tão cedo na Região Carbonífera. Tudo porque a Susepe, com o intuito de diminuir a déficit de vagas prisionais, está trabalhando em dois projetos. O primeiro, de um novo módulo, na Penitenciária Modulada de Charqueadas, que abrigará 500 apenados. O segundo, com a construção do Presídio de Arroio dos Ratos, que criará 700 novas vagas no sistema carcerário. As obras devem estar prontas até o final desse ano.


Entrevista - Juiz Sidinei Brzuska, da Vara de execuções criminais
“Charqueadas não tem capacidade para suportar a demanda prisional da Região Metropolitana”
Portal de Notícias (PN) - Por que os presos estão vindo para o complexo de Charqueadas, já que o mesmo também está superlotado?
Sidinei Brzuska (SB) - Na minha avaliação, as casas prisionais de Charqueadas não têm capacidade para suportar a demanda prisional da Região Metropolitana. Entretanto, bem ou mal, é ainda o que se tem de melhor em termos de estrutura. Acredito que por isso a Susepe optou por Charqueadas.
PN - A decisão da Susepe não está apenas transferindo o problema de um lugar para outro?
SB - Sim. Está transferindo. Importante explicar que a imposição de teto no Presídio Central está associada a uma questão sanitária, envolvendo principalmente esgotos, cujo problema não foi resolvido pela Susepe, em que pese várias cobranças feitas nos últimos três anos. E a Brigada Militar, que administra o Presídio Central, não tem como enfrentar esse tipo de questão. Então, de certa forma, agora o problema está sendo transferido para quem tem o dever de resolvê-lo.
PN - O que tem que ser feito para solucionar os problemas?
SB - Emergencialmente, abertura de vagas, com construção de presídios em locais onde eles não existem. Não é razoável, por exemplo, que cidades como São Leopoldo, Novo Hamburgo, Tramandaí, dentre outras, não possuam casas prisionais para os três regimes. Em um segundo momento, juntamente com a abertura das vagas, precisamos uma reforma ampla na forma de como o sistema vem sendo administrado, o que implicará em outros investimentos pesados na questão funcional, saúde e de trabalho, pois de nada adianta abrir vagas mantendo-se a atual forma de administração. Um bom início seria escolher as áreas das novas prisões nas adjacências de distritos industriais e próximo de rodovias, já planejando a futura ocupação dos presos e escoamento da produção. A edificação próxima de campus universitários também apresenta-se bastante interessante. No regime semiaberto, as vagas devem ser abertas em casas prisionais pequenas, pulverizadas nas diversas cidades de origem dos condenados.