Doadores de sangue de Butiá abastecem hospitais da Capital

Grupo de doadores voluntários é referência no Estado com mais de 400 participantes

Por Portal de Notícias 14/11/2017 - 20:04 hs
Foto: Fernanda Chaves
Doadores de sangue de Butiá abastecem hospitais da Capital
O grupo GDVS se desloca de Butiá, no inteior do Estado, para a capita

Fernanda Chaves / Agência J / Famecos-PUCRS

Há 33 anos, o aposentado e ex-vereador Manoel Rosa é doador de sangue ativo.

- Em 2000, quando me elegi vereador em Butiá, trouxe o ônibus do hemocentro três vezes para a cidade. “Um amigo me convidou para montarmos o grupo, fomos até uma grande empresa de ônibus intermunicipais, onde eles disponibilizaram um veículo para deslocamento até Porto Alegre”, relembra o fundador do Grupo de Doadores Voluntários de Sangue (GDVS), referência no Sul do país com mais de 28 mil doações de sangue em 14 anos de existência e 400 participantes.

“Eu, como voluntário, via as pessoas nos hospitais precisando de sangue e ficava muito triste”, relata Manoel. Uma moradora de Quitéria (interior de São Jerônimo), um dia se queixou dizendo que era filha única, seus tios não podiam doar e seu pai precisava de 15 doadores de sangue. Ela disse a Manoel: “Se eu não arrumar, meu pai vai morrer. Então, lá no Hospital Conceição me indicaram para falar com o Manoel Rosa que ele vai dar um jeito”.

Em 2003, em Butiá, a 80km de Porto Alegre, foi criado o grupo que hoje é reconhecido e muito lembrado nos hospitais e hemocentros. O objetivo é fazer o bem, sem olhar a quem. Com apoio de empresas, do comércio da cidade e dos demais municípios da região carbonífera como Arroio dos Ratos, Charqueadas, São Jerônimo e Minas do Leão, além da colaboração de voluntários tanto nas doações como na organização geral do grupo, eles arrecadam, em média, 500 bolsas de sangue por ano.

As bolsas de sangue abastecem hospitais da Capital, como Grupo Hospitalar Conceição, Hospital de Clínicas, Hospital da São Lucas da PUCRS, Laboratório Marques Pereira, Complexo Hospitalar Santa Casa e também o Hemocentro, centro de coleta que distribui o sangue conforme a necessidade dos hospitais. “Eu conheço todos os hemocentros do Estado. Para eles, nosso grupo é conhecido como um ‘Deus’. Eles se apavoram com tudo o que conseguimos, pois nunca negamos nada a ninguém. Quando o governo conseguir um fabricante de sangue que não for o próprio ser humano, aí sim podem mandar fechar todos os hemocentros”, relata seu Manoel.

Para dar continuidade às ações de voluntariado e também se manter financeiramente, o GDVS promove diversas atividades beneficentes como brechós, rodeios, rifas, venda de almoços e galetos, além de intensificar a campanha em busca de novos doadores nas escolas e na rádio de Butiá. Segundo o doador, o grupo gasta em média R$ sete mil por ano, arrecadados através das ações feitas pelos próprios participantes na confecção e venda de camisetas e acessórios. Este recurso é usado para compra de água mineral e dos alimentos necessários durante a viagem até Porto Alegre. “O grupo está sempre forte, não dependemos do dinheiro de ninguém e não gastamos dinheiro em vão. O que gastamos são para as águas minerais e as bolachas que levamos com a intenção de cativar o nosso doador”, explica.

 “Doador não escolhe raça, nem religião”

A vontade de ajudar ao próximo sempre falou mais alto para Manoel e seus companheiros doadores. “Eles me ligam, Manoel precisamos de sangue, e eu desloco um pessoal para ir até o hospital”, conta o fundador. Há anos, salvando vidas, os participantes já receberam diversas homenagens e troféus pelo trabalho prestado. É o caso de José Luís Soares Silva, que fez mais de 30 doações durante os 14 anos do grupo. “A partir da doação, se faz um mini check-up e, assim temos uma noção da saúde. Então, isso nos facilita a auxiliar nossos semelhantes. O grande número de doações é uma consequência”, afirma.

José Luís se tornou doador para ajudar um colega que havia se lesionado em uma partida de futebol. Por essa razão, foi doar. Depois, a participação no grupo foi uma sequência, relembra.  

Com um parente necessitando de doação de sangue, Nilton de Carvalho fez sua contribuição e, logo após, também ingressou no GDVS. “Acho lindo demais esse ato, pena que muita gente não tem essa consciência. Por falta de comunicação e de conhecimento, as pessoas não sabem da importância deste gesto”, comenta Carvalho.

“Comecei doando para uma senhora que eu cuidava, depois fui para Butiá e entrei no grupo”, revela Iraci de Araújo que também participa do GDVS desde a sua criação. “Tu precisas implorar quando alguém próximo a ti necessita de sangue. É gratificante poder ajudar a salvar alguém sem saber quem é”, observa a doadora.

Prestes a se tornar doador de medula óssea também, Dario de Almeida Pereira participa do grupo desde 2009. “Conheci o Manoel através do meu pai, então, comecei a doação de sangue. Em 2013, me cadastrei no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). Me sinto único, a compatibilidade de medula é muito rara. A gente se sente mais especial ainda”, afirma.

Sobre os jovens, Manoel considera que há bastante interesse em se tornar doador de sangue, mas nem sempre podem doar devido a tatuagens e piercings feitos em menos de um ano. Homens entre 16 e 69 anos podem doar até quatro vezes ao ano. As mulheres ficam restritas em apenas três vezes, ambos com mais de 50 quilos. “No nosso ônibus, as pessoas já estão cansadas de saber o que pode ou não para doar. Esses dias levamos 46 pessoas, só um não pôde doar. Importante: doador de sangue não escolhe raça, nem religião, nem nada”, revela o fundador.

Desafio para 2018

Em 2018, o grupo completará 15 anos e estabeleceu a meta de conseguir mil bolsas de sangue. “Eu só estudei até a sexta série, mas já salvei muita gente que tem faculdade”, destaca Manoel. Agora, o desafio é mil bolsas de sangue ano que vem. “Temos 16 mil eleitores em Butiá. Se tirarmos seis mil destes que são os mais velhos e os medrosos… (risos), sobram 10 mil pessoas para conseguir mil bolsas”, calcula o fundador.

Quer participar do GDVS?

Para ser doador e participante do GDVS, é necessário o preenchimento de uma ficha, além de estar em condições físicas para realizar a doação de sangue. O próximo encontro do grupo será dia 16/12 no Hospital de Clínicas, Complexo Hospitalar Santa Casa e Laboratório Marques Pereira.

Contato: (51) 98213 1265 e e-mail: gdvsbutia@gmail.com

Condições básicas para doação de sangue

* Ter entre 16 (acompanhado de responsável) e 69 anos;

* Pesar mais de 50 quilos;

* Não apresentar estado gripal;

* Não ter tido hepatite após os 10 anos de idade;

* Nunca ter tido malária ou doença de Chagas;

* Não ter recebido sangue nos últimos 12 meses;

* Não estar grávida, ter tido parto ou aborto há menos de três meses;

* Não ter doado sangue há menos de três meses (mulheres podem doar a cada três meses, homens a cada dois meses);

* Não ter feito tatuagem nos últimos 12 meses;

* Não ser portador de HIV ou Aids;

* Não ter comportamento de risco para Aids (usuários de drogas, pessoas que trocam frequentemente de parceiros sexuais, homossexuais masculinos e bissexuais);

* Não ter tido nenhuma doença sexualmente transmissível nos últimos 12 meses;

* Não ter tido contato sexual nos últimos 12 meses com pessoa que apresenta teste positivo para HIV, hepatite B ou hepatite C;

*Não ter sido detido em instituição carcerária ou policial nos últimos 12 meses.