A Catalunha não é Espanha. O Sul é Brasil?

O que não desejamos com a autodeterminação é a reprodução de um “Brasil menor”

Por Portal de Notícias 06/10/2017 - 14:55 hs

Alexsandro Witkowski*

Conforme matéria publicada no Jornal Portal de Notícias, em 29 de setembro, no próximo sábado, 7 de outubro, o movimento O Sul é o Meu País realiza o Plebisul 2017, uma consulta popular para saber se a população da região Sul (Rio Grande do sul, Santa Catarina e Paraná) deseja ou não a separação do resto do país. Mais informações sobre a consulta popular e o movimento podem ser obtidas no site http://www.sullivre.org/

Na minha perspectiva, resumidamente, O Sul é o Meu País é um movimento formado por cidadãos de diversos grupos sociais, formadores de uma pluralidade de ideias, reivindicando uma razoável participação nos frutos resultantes do nosso trabalho em benefício do desenvolvimento econômico, social e cultural das populações dos Estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

No entanto, um alerta: mais do que a vitória da causa autodeterminista, deve preocupar-nos primeiramente a vitória e a consolidação das ideias e da orientação do movimento autodeterminista. Pessoalmente, tenho a certeza de que elas, as ideias autodeterministas, hão de triunfar porque estão dentro da linha de evolução do mundo através do direito internacional da autodeterminação dos povos.

O Sul é o Meu País é um movimento de idealismo. Se agir em função de interesses pessoais trairá não só a causa dos povos sulistas, mas também dos demais povos brasileiros que almejam a sua autodeterminação. Deve-se voluntariamente disseminar os ideais com renúncia e desprendimento. Aqueles que se não acharem imbuídos desse espírito republicano devem compreender que erraram a porta e que se sentirão mais à vontade em outras companhias.

A política e os recursos, sejam públicos ou privados, não devem ser apenas instrumentos produtores de lucro para alguns, mas, principalmente, um meio de expansão econômica e de bem-estar coletivo. Mas não é isso que todos os homens públicos desejam? Infelizmente, nem sempre.

O que não desejamos com a autodeterminação é a reprodução de um “Brasil menor”, pelo contrário, desejamos que proporcione ao alcance de todos uma crescente extensão da solidariedade social e uma crescente participação de todos nos benefícios da civilização e da cultura, para o crescente progresso econômico e social da coletividade através do desenvolvimento sustentável.

No entanto, para isso, primeiro, é preciso transformar o caráter das pessoas, o exercício pleno da cidadania, ou seja, uma população não meramente formada por consumidores e sim formada por cidadãos com direitos e deveres civis, políticos e sociais. Até lá, estaremos apenas engatinhando para um processo autodeterminista.

O processo autodeterminista é complexo e difícil. O exemplo recente da Catalunha é um aviso e um alerta. O espectro de Franco permanece em Madri, onde uma herança autoritária, sem diálogo, tenta impor a vontade de alguns, através da força, sobre a vontade de muitos. A autodeterminação dos povos é um direito inalienável. No caso espanhol, compete à população catalã decidir. E eles decidiram: Catalunha não é Espanha.

Cedo ou tarde, nós, sulistas, passaremos pelo mesmo processo. E decidiremos. O Plebisul 2017 é uma consulta popular, portanto, vamos participar e  opinar a respeito, se informar e, acima de tudo, começar a refletir para transformar nossos pensamentos e ações de forma mais coletiva e solidária. Não devemos  manter a lógica da “Mãe gaúcha” ou sulista no lugar da “Mãe brasileira”, em alusão as práticas clientelistas e patrimonialistas que tão mal fizeram – e ainda fazem – a nossa Região Carbonífera.

Esta é a minha mensagem de reflexão. Por fim, repito as sábias palavras do saudoso João Nascimento Franco: “[…] quando o relógio da História bater a hora da separação nenhum dispositivo legal, pétreo ou não, poderá adiá-la”.

 

(*) Historiador, mestrando do Programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio da Universidade Federal (Ufrgs).