Para General Câmara, com carinho

Ser camarense é deixar a cidade, mas ver que amigos e ex-colegas continuam lá e estão fazendo a diferença.

Por Portal de Notícias 05/05/2017 - 13:56 hs

André Liziardi

 

Invariavelmente brinco que nasci em General Câmara por um erro estratégico. É uma forma de levar na esportiva quando alguém se espanta com a informação, já que imaginam que eu sou um taquariense da gema. É como se o Bibiano Pontes e eu, outro camarense de Taquari, nunca tivéssemos atravessado a barca e vivido nas terras da “Margem”.

É preciso esclarecer que não sou o tipo urbano, mas um vivente rural de General Câmara. Ainda hoje, lembro o ônibus sacolejando pelas estradas de terra batida, e nos levando à cidade. Principalmente ao desfile cívico de Sete de Setembro, até hoje gosto de refazer a curva do “João Canabarro”, e lembrar a tentativa de marchar (algo que nunca deu certo).

Não esqueço o dia que fui estudar no Vasconcelos Jardim, única escola com ensino médio da cidade. O grande desafio foi transpor a timidez, sair de um colégio no qual se conhecia todos os colegas, para um em que eu sequer sabia quem estava sentado ao meu lado. Guardo boas lembranças desta época, e até hoje levo os ensinamentos de xadrez do professor Morel.

General Câmara me deu uma das melhores reportagens da vida, publicada também neste semanário. Em 2015, viajei até a localidade de Potreiro para entrevistar um grupo de quilombolas, a área em que eles moram recém tinha sido reconhecida como remanescente de um quilombo. Sempre me despi da minha palavra, para alcançar a palavra do outro. E naquele dia, encontrei uma General Câmara até então desconhecida para mim, com pessoas que lutam para manter a história viva, transpondo-a da oralidade para o reconhecimento escrito.  Creio que há inúmeras General Câmara não alcançadas ainda.

Hoje, minhas idas a General Câmara se resumem a casa dos meus pais, no interior. Geralmente com uma parada na rodoviária. E, de tabela, uma caminhada pelas ruas da cidade.

Voltar a General Câmara é um exercício de autoexílio, além de ter a certeza do não pertencimento a lugar algum. Gosto de percorrer lugares que, por razão do tempo, mudaram ou deixarão de existir. Perceber que a cidade é uma entidade viva, onde tudo muda, muda, muda. Nesse ínterim permanece a lembrança, fazendo que cada um tenha a sua General Câmara particular.

Ser camarense em outras terras é explicar que a cidade não é uma fortaleza militar, como alguns pensam (descobri isso durante um evento em Londrina). Ser camarense é defender que temos umas das melhores prainhas da região, ainda mais com a cerveja gelada no Bar do Derli. Ser camarense é deixar a cidade, mas ver que amigos e ex-colegas continuam lá e estão fazendo a diferença.

Parabéns pelo aniversário, General Câmara.

(*) Jornalista