Desafio da Baleia Azul

Crianças com menos de cinco anos podem desenvolver um quadro de depressão. Na adolescência a incidência é muito maior

Por Portal de Notícias 28/04/2017 - 18:00 hs

Mônica Patricia Ferreira*

 

Pensei muito antes de escrever, porque alguns já se referem a mim como a “chata mimizenta dos textões”...  Porém, tenho visto tanta bobagem, boçalidade e preconceito em postagens e comentários sobre o assunto, que chego a ficar com pena... Não de quem sofre, de quem é vitima. Tenho pena é de quem não consegue perceber o quanto este problema é grave. Pena de quem não consegue se colocar no lugar do outro. Pena de quem tem uma visão tão limitada da vida e dos outros seres humanos.

Sem contar a incoerência! Vi a uma mesma pessoa postar nas redes sociais uma mensagem linda, falando da importância dos pais estarem atentos, de se aproximarem dos filhos e de darem carinho a eles. Menos de duas horas depois, a mesma pessoa compartilhou a foto de uma Havaianas, com a frase “Esta é a Baleia Azul que os jovens de hoje estão precisando”. Juro que não consigo entender essa gente, o que se passa na cabeça de uma pessoa que consegue ter duas visões tão discrepantes sobre um mesmo assunto.

Outros compartilhamentos dizem que a proporção assustadora de pessoas participando desse jogo bizarro é falta de “laço”, falta de “colocar um trabalho no corpo”, não se dando conta de que os adolescentes que estão se mutilando e cometendo suicido sequer tem idade para ingressar no mercado de trabalho.

Também vi algumas colocações lamentáveis como “Acho sem sentido crianças de 12 ou 13 anos com depressão e se mutilando. Parece até que estão cheio de dívidas e frustrados no amor.  Nunca vi nenhum adulto participando desse baleia azul”. Fico feliz por esta pessoa ter passado pela infância, pela adolescência e já por parte da vida adulta, sem saber o que é depressão. Que ótimo pra ela! Mas infelizmente, esta não é a realidade de muita gente...

Crianças com menos de cinco anos podem desenvolver um quadro de depressão. Na adolescência a incidência é muito maior. Sabem porque não vemos adultos participando do jogo macabro? Porque os jovens são mais vulneráveis e os adultos, por terem mais afazeres e responsabilidades, sofrem no piloto automático.

Se o jogo existisse quando eu era adolescente, talvez não estivesse aqui escrevendo este texto. O mesmo se aplica para muitas pessoas que eu conheço. É muito fácil criticar e julgar quem sofre de depressão sem ter conhecimento de causa. Na realidade, é uma forma muito cruel de tentar atingir, denegrir e machucar pessoas que estão doentes.

O que vemos nesse absurdo que tomou conta da internet na ultima semana, não é uma novidade infelizmente... Quem aqui não se lembra da música “Clarice” uma das últimas composições de Renato Russo?

E Clarisse está trancada no banheiro

E faz marcas no seu corpo

Com o seu pequeno canivete

Deitada no canto, seus tornozelos sangram

E a dor é menor do que parece

Quando ela se corta, ela se esquece

Que é impossível ter da vida calma e força

Viver em dor, o que ninguém entende

Tentar ser forte a todo e cada amanhecer

A depressão e a automutilação existem há décadas, agora estão apenas sendo expostas nas redes sociais. Ou será que alguém aqui tem a capacidade de achar que essa galerinha está se cortando e se matando porque acha isso divertido ou quer chamar a atenção de alguém? Bah, se por acaso acham... Sugiro que comecem a ler urgentemente artigos sobre depressão infantil e juvenil, para não saírem por aí reproduzindo idiotices e passando vergonha.

E sim, falo como se eu conhecesse a doença de perto, porque eu conheço mesmo!

Desenvolvi um quadro de depressão ainda na infância de forma leve e por isso, as pessoas não se davam conta dos motivos do meu medo excessivo da morte, de ficar sozinha, de muitas coisas. A situação se agravou na minha adolescência, mas só busquei ajuda aos 25 anos, quando a coisa ficou insustentável. Depois de muita de terapia, alguns remedinhos e imenso apoio da minha família e dos amigos mais próximos, posso dizer que sou uma depressiva recuperada. Não estou curada, porque nunca ficamos curados. Meu organismo não produz algumas substâncias que deveria produzir, por isso é necessário repor. Vivo feliz, tomo meus remédios sempre que necessário e observo qualquer mudança brusca no meu humor. Mas sem apoio a recuperação fica bem difícil...

Depressão não é motivo para vergonha. Quem deve se envergonhar é quem nos julga!

 

 

(*) Jornalista – Triunfo/RS