Turismo receptivo e a região Carbonífera

A região Carbonífera possui um rico e belo patrimônio cultural e natural que nos é peculiar

Por Portal de Notícias 17/03/2017 - 17:25 hs

Alexsandro Witkowski e Tassiane Freitas*

 

Conforme o Prof. Dr. Carlos Sampaio (2005), a temática turismo como "fenômeno humano" deve ser tratada com um enfoque transdisciplinar: estudar o turismo nas perspectivas histórica, econômica-administrativa, filosófica-política-sociológico e ambiental.

Na perspectiva da socioeconomia, o turismo comunitário estimula a valorização e preservação de tradições e relações sociais mais solidárias; a geração de trabalho e renda sob a perspectiva de modos de produção mais associativistas; a revigoração dos significados de virtude humana e do próprio poder público; e a utilização apropriada dos recursos culturais, naturais e das capacidades humanas locais.

Entenda-se turismo comunitário como uma estratégia de projetos de desenvolvimento de uma ou mais comunidades, na qual a população autóctone se torna a principal protagonista, preservando seus modos de vida que lhe são próprios e que possam ser vivenciadas através da atividade turística. Essas experiências não são perfeitas ou definitivas, mas representam capacidades humanas aproveitadas nos seus próprios espaços locais. E, na maioria das vezes, evitam a migração forçada danosa às populações rurais e que reforçam as patologias urbanas.

Diferente do "turismo de massa" (convencional, passivo e sazonal), o "turismo receptivo" é um serviço personalizado, sustentável e interativo, ideal para pequenos grupos, focado no turismo cultural. Para que o segmento de turismo receptivo de um município ou região se desenvolva, devem existir alguns fatores de atração de visitantes, tais como recursos naturais, históricos e culturais; facilidade de acesso, promoção turística, infra-instrutura básica e complementar; condições favoráveis de vida da população local; etc.

Neste último feriadão de carnaval, estivemos na Serra Gaúcha visitando comunidades urbanas e rurais através do turismo receptivo. Destaque para o roteiro colonial "Compassos da Mérica Mérica", composto por propriedades rurais, cantinas e espaços de memória no interior do município de Flores da Cunha. A temática central é a música símbolo da imigração italiana no Rio Grande do Sul que dá nome ao roteiro.

Conhecemos vinícolas artesanais e de produção familiar com degustação de vinhos e sucos; a produção de cogumelos; propriedades rurais com degustação de frutas da época; utensílios do cotidiano dos imigrantes e de suas famílias (gerações); realizamos o passeio de "carretão", etc. Enfim, vivenciamos o dia-a-dia daquelas comunidades rurais, agregando ao nosso conhecimento experiências diversas com cidadãos e famílias que geograficamente estão próximos, mas, ao mesmo tempo, culturalmente, distantes da nossa região Carbonífera.

Em pleno carnaval, segunda e terça-feira foram dias normais de trabalho no rural e no urbano. A região é conhecida pela uva e vinho, trabalho e desenvolvimento, lindas paisagens e o turismo cultural e natural. Diversos atrativos e roteiros turísticos gerando emprego e renda o ano inteiro. Enquanto isso, em nossa região, reina a política do entretenimento sazonal, do "pão e circo".

Alegra-nos a recente entrevista do professor Rudney Santos, economista e atual secretário municipal da fazenda de São Jerônimo (Portal de Notícias, 10/02/2017), onde ele destaca o "potencial gigantesco" do turismo no município, inclusive como fonte de receita. Realmente, a região Carbonífera possui um rico e belo patrimônio cultural e natural que nos é peculiar. É preciso desenvolver e investir em projetos de turismo sustentável. E o turismo receptivo é um aliado neste caminho.

 

(*) Historiadores, membros associados Defender/RS.

 

Dica de leitura: SAMPAIO, Carlos Alberto Cioce. Turismo como fênomeno humano: princípios para se pensar a socioeconomia e sua prática sob a denominação turismo comunitário. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2005.