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FARRA DAS DIÁRIAS
Como estão os gastos das Câmaras de Vereadores um ano depois do escândalo

Rodrigo Ramazzini

Oito de agosto de 2010. Um domingo. Essa foi a data em que, há um ano, estourava na Região Carbonífera o escândalo que ficou conhecido como “Farra das Diárias”, quando vereadores dos municípios de Triunfo e General Câmara foram flagrados em uma reportagem de televisão fazendo turismo com dinheiro público.
No dia seguinte, a Polícia Civil e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) desencadearam uma operação batizada de “Legislatur”, que cumpriu mandados de busca e apreensão de documentos nas Câmaras de Vereadores dos dois municípios.
De lá pra cá, a polícia já concluiu o inquérito e indiciou um vereador de Triunfo e seis assessores.
Passados doze meses desse episódio que ganhou destaque nacional, como estão os gastos das Câmaras de Vereadores dos municípios da Região Carbonífera? Em busca desta resposta, a reportagem do Portal de Notícias fez um levantamento junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). Para analisar o comportamento dos vereadores no período, foi convidado o cientista político e professor da Unisinos, Bruno Lima Rocha, que acompanhou o escândalo à época (ver entrevista).



Prefeituras da região já gastaram R$ 796 mil em diárias esse ano


Se a Câmara de Vereadores de Triunfo ganhou destaque pelos gastos desenfreados com diárias durante o escândalo, quando a análise passa para os valores pagos pelas prefeituras da Região Carbonífera com esse tipo de despesas, a prefeitura de Triunfo assume o posto de protagonista. Nos primeiros seis meses desse ano, em média, a cada mês, saíram dos cofres públicos do município R$ 65 mil para arcar com os custos de diárias.
Os executivos dos municípios de Arroio dos Ratos, Barão do Triunfo, Butiá, General Câmara, também, tiveram um gasto maior com despesas de diárias esse ano em comparação ao mesmo período do ano passado. Charqueadas e Minas do Leão apresentaram reduções nos gastos. São Jerônimo ficou praticamente igual.
Ao se comparar os valores gastos em diárias com a prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, o montante acaba ganhando uma dimensão mais clara. Em seis meses, a prefeitura da Capital já desembolsou dos cofres públicos R$ 257,9 mil em diárias, sendo R$ 148,5 mil para dentro do país e R$ 109,4 para o exterior (ver quadro e entrevista).


ENTREVISTA – BRUNO DE LIMA ROCHA*, cientista político e professor da Unisinos.
SOBRE OS GASTOS DOS LEGISLATIVOS:

“Foi uma contenção de gastos a partir do exercício de vigilância”

Portal de Notícias (PN) - Comparando os gastos com diárias nos legislativos, o que mudou do escândalo de um ano para os dias de hoje?
Bruno Rocha (BR) - Para responder essa pergunta com precisão teria de acompanhar o comportamento político do legislativo nestes municípios. Mas, o que aparenta haver mudado, foi uma contenção de gastos a partir do exercício de vigilância de órgãos públicos de controle e fiscalização e, derivado da cobertura midiática (regional e estadual), o rechaço de parte da população mobilizada contrária aos gastos com viagens e diárias desnecessárias. Repito que isto é uma inferência, e não um grau de certeza rigoroso.

PN - Analisando os números e a redução apresentada, pode-se afirmar que realmente havia um descontrole no município de Triunfo com gastos em diárias nos legislativos?
BR - Buscando alguma precisão na resposta, talvez o correto seja afirmar “autocontrole” e não descontrole. O descontrole implica supor que os ordenadores de despesas teriam perdido a gestão sobre os gastos. Mas, ao que aparenta o que ocorria era um controle próprio, aonde o comportamento político ia ao encontro de uma possibilidade de ordenar despesas sem preocupar-se muito com a repercussão. Triunfo, para mim, é a prova de que uma bela arrecadação não muda a natureza da política profissional. É claro que quando há escassez de recursos existe uma batalha acirrada pelo controle destes. Mas, quando há abundância de recursos combinado com uma cultura política paroquiana, a relação patrimonialista com os bens públicos aflora.

PN - E em General Câmara?
BR - Como a redução no primeiro semestre de 2011 foi drástica em relação a 2010 e 2009, podemos supor que sim. Muda o volume das despesas (entre Triunfo e General Câmara), mas não a desproporção de gastos, em se comparando os anos. Se estudarmos a natureza dos gastos dos dois últimos anos, provavelmente chegaremos às mesmas conclusões.

PN - O Legislativo de Charqueadas foi o que apresentou um aumento significativo nos gastos do primeiro semestre de 2011 em relação ao mesmo período do ano passado. Os principais destinos: Chapecó, Criciúma, Florianópolis, Palmitos, Araranguá, Sombrio, Capão da Canoa, Tramandaí, Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre e Brasília. Tem por que aumentar tanto esses gastos?
BR - Porque sempre tem, resta saber se a razão vai ao encontro dos bens públicos, do cuidar da res pública, ou é apenas uma forma de se locupletar ou aproveitar as circunstâncias de uma atividade política que não é de tempo completo – como a dos vereadores destes municípios – e assim poder livrar-se de dias de trabalho e complementar renda e lazer. Esta ciranda de congressos, seminários, encontros e palestras são muito comuns, por exemplo, no meio acadêmico, e mesmo nós que somos obrigados a comparecer a eventos entre pares nos sentimos prejudicados porque os financiamentos são escassos e terminamos pagando do bolso para cumprir obrigação curricular (na progressão de carreira e projeção no campo). Ainda assim, muitos colegas – eu me incluo – por vezes a consideramos uma agenda apertada e desnecessária. O que dirá um vereador indo fazer cursos livres em locais de apelo turístico, e ainda por cima recebendo diárias. Repito o que já disse em outras ocasiões. Ou se organiza uma escola de governo para os municípios ou será a eterna suspeita.

PN - Quando uma diária de vereador ou assessor é justificável?
BR - Depende da proposta de justificativa. Por exemplo, se a cultura política do local entende que o vereador tem o direito de se beneficiar com o cargo, pois afinal, isto é parte da natureza do exercício de uma função de destaque em nossa sociedade, culturalmente se justifica embora legal e moralmente não. É mais ou menos como a relação do primeiro ministro da Itália Sílvio Berlusconi e suas festas Bunga Bunga. Uma parte do eleitorado italiano aprova e disse que em seu lugar faria o mesmo. Já de um ponto de vista mais republicano, qualquer gasto é justificável se o recurso for aplicado em algo que esteja dentro de regras e atribuições da função. Especificamente em relação a cursos e palestras, os gastos são importantes quando há transferência de conhecimento e possibilidade de melhoria de qualidade de vida dos representados e contribuintes a partir daquele aprendizado. Do contrário, haverá desconfiança e suspeição.

SOBRE OS GASTOS DOS EXECUTIVOS:

“Os resultados são chocantes e complicados de serem defendidos publicamente”

PN - Os gastos com diárias do executivo da Região Carbonífera estão em patamares aceitáveis?
BR - Isso só pode ser respondido em comparação com outras regiões com características semelhantes – fazendo uma comparação horizontal – e em comparação com regiões mais populosas e com a própria capital. Havendo uma disparidade elevada, há que se buscar qualificar a natureza dos gastos com diárias. Na lida da análise política, aprendemos que aí a “coisa toda se revela” no ato de comparação e no estudo de caso. Em geral os resultados são chocantes e complicados de serem defendidos publicamente.

PN - Quando uma diária do executivo ou de assessores é justificável?
BR - Eu entendo que aí se trata do exercício da função. O problema é que muitas vezes, não havendo diária em viagem, o funcionário tira do bolso para tentar reaver depois. Portanto, trata-se de focar na natureza do gasto e não do gasto em si. Mas, em geral, até para modificar a impressão de que toda a diária é “farra e trem da alegria”, é preciso conter gastos com esse tipo de atividade e formalizar um processo de formação continuada de tipo escola de governo a partir do municipalismo.

*site: http://www.estrategiaeanalise.com.br/



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