Revelações
de um bombeiro
Em entrevista exclusiva, profissional expõe
as fragilidades da corporação
Viviane Bueno
Com a missão
de proteger e salvar vidas, o Corpo de Bombeiros se revela como uma
corporação com carros sucateados e com falta de efetivo.
A situação caótica vem se arrastando ano após
ano. Atualmente, não há estrutura para atender dois sinistros
ao mesmo tempo e a população é quem paga a conta:
fica à mercê do perigo. Para ilustrar essa realidade, o
jornal Portal de Notícias entrevistou um profissional do Corpo
de Bombeiros do município de São Jerônimo, que tem
a difícil missão atender toda a Região Carbonífera.
Ele, que escolheu a profissão por admiração e por
vontade de servir ao próximo, afirma que apesar de todas as dificuldades
que enfrenta no dia a dia, a sua tarefa não é um fardo
e sim uma honra, ainda vê uma luz no fim do túnel: sente
orgulho e privilégio em ser bombeiro. Para evitar represálias
da corporação, o entrevistado terá sua identidade
preservada.
Entrevista
“Escutamos
que não trabalhamos e que não somos comprometidos. A gente
ouve isso todos os dias”
PN
- Qual a atual situação do corpo de bombeiros de São
Jerônimo?
A situação dos bombeiros hoje é lastimável.
Trabalhamos precariamente em tudo, com pouco efetivo, sobrecarga no
pessoal, que tem que se desdobrar em atender a emergência/socorro
e também auxiliar no trabalho administrativo e atuar mal e porcamente
na prevenção de incêndio (fiscalização),
material defasado, com muitos anos de uso, como por exemplo, nossos
caminhões.
PN
- Quais dificuldades que são encontradas no cotidiano da corporação?
As dificuldades são muitas, mas há duas principais e uma
terceira que é especifica da nossa região. A primeira
é que nos debatemos dentro da instituição com a
falta de efetivo, onde hoje no plantão deveríamos ter
no mínimo sete bombeiros de plantão, na grande maioria
das vezes, acabamos por ter três, às vezes quatro. A segunda,
fica a cargo dos caminhões, muito velhos e já sem a mesma
segurança devido a problemas mecânicos, que mesmo que consertem
acabam estragando novamente. A terceira é que nossa área
de atuação conta com uma distância enorme entre
um município e outro, e estradas em péssimo estado de
conservação. Há falta de comprometimento das prefeituras
em nos apoiar, deixando somente o compromisso para o Estado.
PN
- O lema da corporação é salvar, salvar, sempre
salvar. Isso acontece em situações reais de perigo?
É só acompanhar as ocorrências que essa pergunta
estará plenamente respondida. Os homens que trabalham no corpo
de bombeiros deixam suas casas para defender vidas e patrimônios
alheios, muitas vezes sem sucesso, mas nunca por falta de comprometimento,
de vontade de trabalho, de amor pelo que faz. Quem faz isso, faz de
coração, ou tu achas que a média de R$ 1.500 paga
uma vida por outra? Te faço essa pergunta: se tu superaria as
dificuldades e os perigos enfrentados e vividos cotidianamente, a batalha
diária de salvar vidas somente por um salário, sem esperar
reconhecimento até mesmo daquele que tu estende as tuas mãos
e dedica tua vida?
PN
- A região encontra, hoje, uma série de dificuldades no
que se refere a efetivos e viaturas. Em sua opinião, o que precisa
ser feito para mudar essa realidade?
Só tem uma solução: investimento em homens, viaturas
e tratar os brigadianos, policiais e bombeiros com o devido respeito
pelo serviço que presta m, pelas famílias que com essa
honrada e amada profissão sustentam.
PN
- A falta de estrutura adequada para trabalhar torna os bombeiros frustrados
com a profissão?
Torna frustrado com a instituição, não com a profissão
que escolheu com amor e vocação.
PN
- Vale a pena ficar longe da família para encarar esse ofício
tão difícil?
A recompensa esta quando tu retornas para ela, (a família), com
um abraço e um beijo e a benção dos pais, filhos
e esposas, que mesmo de longe, te acompanham, sabes que o que tu faz,
faz com amor, com comprometimento e profissionalismo.
PN
- O trabalho dos bombeiros é reconhecido pela comunidade? Há
uma imagem distorcida do verdadeiro papel desse profissional?
Com certeza, pelo o que a gente escuta nas ocorrências, parece
que demoramos porque a gente quer, que nosso caminhão é
sucateado porque a gente deixa ficar assim. Não buscamos reconhecimento,
até por que fazemos isso de coração, mas sim consideração
pelo serviço que mesmo não sendo de qualidade, se tenta
fazer da melhor maneira possível. Escutamos que não trabalhamos
e que não somos comprometidos, a gente ouve isso todos os dias,
mas é bem pelo contrário, somos muito dedicados, a gente
ama o que faz, mas infelizmente faltam condições.
PN
- No incêndio que destruiu a loja Ponto Alternativo, em Charqueadas,
na semana passada, qual estrutura seria necessária (ou ideal)
para evitar que as chamas se alastrassem?
Efetivo. Com isso mais elementos na equipe para não acumular
funções, viaturas, que ficou claro, e um hidrante em pontos
estratégicos para melhorar o tempo de abastecimento da viatura,
que hoje o melhor é na Gerdau. A Corsan alega que não
tem condições de instalar mais hidrantes, e isso não
é uma realidade só de Charqueadas.
PN
- A falta de efetivo é sinônimo de horas extras acumuladas?
Quantos profissionais trabalham hoje em São Jerônimo? Como
é feito o revezamento?
Sim, a falta de efetivo acarreta em horas extras, no total de 15 homens,
mas concorrendo escala somente 11. Dos 5 que não concorrem, é
comando, outro cedido à escola de bombeiros, sempre um de férias,
e outro que sofreu um acidente de trabalho, está de licença
saúde e em tratamento psicológico, devido à queda
em uma ocorrência.
PN
- Em relação aos salários, é preciso mais
investimentos, mais valorização do profissional?
Sem duvida, a valorização profissional é uma busca
de qualquer profissional.
PN
- Hoje, é possível atender duas cidades ao mesmo tempo?
Qual é a prioridade?
Impossível atender duas ocorrências ao mesmo tempo. Contamos
com uma equipe diária, para atender toda e qualquer ocorrência,
desde acidentes de trânsito a combate a incêndio, remoção
de fonte de perigo, busca e salvamento, afogamento etc.
Sempre damos uma importância a todas as ocorrências, mas
a prioridade é a vida.
PN
- Em média, um chamado é atendido em quanto tempo?
Aí depende da distância de deslocamento. Como atendemos
toda a Região Carbonífera e interior de outros municípios,
não mencionados a BR 290 e RS 401, por exemplo. Quando recebemos
um chamado em Butiá, a média é de 28 minutos.
PN
- Se tivesses que fazer um desabafo, qual seria?
Que a sociedade dê o mínimo de reconhecimento para aqueles
que guarnecem e zelam pelas suas vidas. Não lembrem dos bombeiros
e da polícia somente quando precisarem, que não digam
que não trabalhamos, porque quando trabalhamos é com a
maior dedicação do mundo, e quando trabalhamos é
na desgraça de outro. Lembrem-se de nós quando forem bater
na suas portas pedindo votos, e peçam para eles melhorias para
os bombeiros. Assim, além da dedicação, poderemos
oferecer também condições dignas de socorro.
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