EDUCAÇÃO E CULTURA o ESPORTES o GERAL o OPINIÃOo POLÍTICA o POLÍCIA o SAÚDE


..Geral
Região Carbonifera, sexta-feira, 27 janeiro, 2012
SGR Martins Comunicação
Rua Cel. Soares de Carvalho, 590 – sala 2 – Sobreloja
96700-000 – São Jerônimo/RS
(51) 3651.4041 | portaldenoticias@terra.com.br
Revelações de um bombeiro
Em entrevista exclusiva, profissional expõe as fragilidades da corporação

Viviane Bueno

Com a missão de proteger e salvar vidas, o Corpo de Bombeiros se revela como uma corporação com carros sucateados e com falta de efetivo. A situação caótica vem se arrastando ano após ano. Atualmente, não há estrutura para atender dois sinistros ao mesmo tempo e a população é quem paga a conta: fica à mercê do perigo. Para ilustrar essa realidade, o jornal Portal de Notícias entrevistou um profissional do Corpo de Bombeiros do município de São Jerônimo, que tem a difícil missão atender toda a Região Carbonífera. Ele, que escolheu a profissão por admiração e por vontade de servir ao próximo, afirma que apesar de todas as dificuldades que enfrenta no dia a dia, a sua tarefa não é um fardo e sim uma honra, ainda vê uma luz no fim do túnel: sente orgulho e privilégio em ser bombeiro. Para evitar represálias da corporação, o entrevistado terá sua identidade preservada.

Entrevista

“Escutamos que não trabalhamos e que não somos comprometidos. A gente ouve isso todos os dias”

PN - Qual a atual situação do corpo de bombeiros de São Jerônimo?
A situação dos bombeiros hoje é lastimável. Trabalhamos precariamente em tudo, com pouco efetivo, sobrecarga no pessoal, que tem que se desdobrar em atender a emergência/socorro e também auxiliar no trabalho administrativo e atuar mal e porcamente na prevenção de incêndio (fiscalização), material defasado, com muitos anos de uso, como por exemplo, nossos caminhões.

PN - Quais dificuldades que são encontradas no cotidiano da corporação?
As dificuldades são muitas, mas há duas principais e uma terceira que é especifica da nossa região. A primeira é que nos debatemos dentro da instituição com a falta de efetivo, onde hoje no plantão deveríamos ter no mínimo sete bombeiros de plantão, na grande maioria das vezes, acabamos por ter três, às vezes quatro. A segunda, fica a cargo dos caminhões, muito velhos e já sem a mesma segurança devido a problemas mecânicos, que mesmo que consertem acabam estragando novamente. A terceira é que nossa área de atuação conta com uma distância enorme entre um município e outro, e estradas em péssimo estado de conservação. Há falta de comprometimento das prefeituras em nos apoiar, deixando somente o compromisso para o Estado.

PN - O lema da corporação é salvar, salvar, sempre salvar. Isso acontece em situações reais de perigo?
É só acompanhar as ocorrências que essa pergunta estará plenamente respondida. Os homens que trabalham no corpo de bombeiros deixam suas casas para defender vidas e patrimônios alheios, muitas vezes sem sucesso, mas nunca por falta de comprometimento, de vontade de trabalho, de amor pelo que faz. Quem faz isso, faz de coração, ou tu achas que a média de R$ 1.500 paga uma vida por outra? Te faço essa pergunta: se tu superaria as dificuldades e os perigos enfrentados e vividos cotidianamente, a batalha diária de salvar vidas somente por um salário, sem esperar reconhecimento até mesmo daquele que tu estende as tuas mãos e dedica tua vida?

PN - A região encontra, hoje, uma série de dificuldades no que se refere a efetivos e viaturas. Em sua opinião, o que precisa ser feito para mudar essa realidade?
Só tem uma solução: investimento em homens, viaturas e tratar os brigadianos, policiais e bombeiros com o devido respeito pelo serviço que presta m, pelas famílias que com essa honrada e amada profissão sustentam.

PN - A falta de estrutura adequada para trabalhar torna os bombeiros frustrados com a profissão?
Torna frustrado com a instituição, não com a profissão que escolheu com amor e vocação.

PN - Vale a pena ficar longe da família para encarar esse ofício tão difícil?
A recompensa esta quando tu retornas para ela, (a família), com um abraço e um beijo e a benção dos pais, filhos e esposas, que mesmo de longe, te acompanham, sabes que o que tu faz, faz com amor, com comprometimento e profissionalismo.

PN - O trabalho dos bombeiros é reconhecido pela comunidade? Há uma imagem distorcida do verdadeiro papel desse profissional?
Com certeza, pelo o que a gente escuta nas ocorrências, parece que demoramos porque a gente quer, que nosso caminhão é sucateado porque a gente deixa ficar assim. Não buscamos reconhecimento, até por que fazemos isso de coração, mas sim consideração pelo serviço que mesmo não sendo de qualidade, se tenta fazer da melhor maneira possível. Escutamos que não trabalhamos e que não somos comprometidos, a gente ouve isso todos os dias, mas é bem pelo contrário, somos muito dedicados, a gente ama o que faz, mas infelizmente faltam condições.

PN - No incêndio que destruiu a loja Ponto Alternativo, em Charqueadas, na semana passada, qual estrutura seria necessária (ou ideal) para evitar que as chamas se alastrassem?
Efetivo. Com isso mais elementos na equipe para não acumular funções, viaturas, que ficou claro, e um hidrante em pontos estratégicos para melhorar o tempo de abastecimento da viatura, que hoje o melhor é na Gerdau. A Corsan alega que não tem condições de instalar mais hidrantes, e isso não é uma realidade só de Charqueadas.

PN - A falta de efetivo é sinônimo de horas extras acumuladas? Quantos profissionais trabalham hoje em São Jerônimo? Como é feito o revezamento?
Sim, a falta de efetivo acarreta em horas extras, no total de 15 homens, mas concorrendo escala somente 11. Dos 5 que não concorrem, é comando, outro cedido à escola de bombeiros, sempre um de férias, e outro que sofreu um acidente de trabalho, está de licença saúde e em tratamento psicológico, devido à queda em uma ocorrência.

PN - Em relação aos salários, é preciso mais investimentos, mais valorização do profissional?
Sem duvida, a valorização profissional é uma busca de qualquer profissional.

PN - Hoje, é possível atender duas cidades ao mesmo tempo? Qual é a prioridade?
Impossível atender duas ocorrências ao mesmo tempo. Contamos com uma equipe diária, para atender toda e qualquer ocorrência, desde acidentes de trânsito a combate a incêndio, remoção de fonte de perigo, busca e salvamento, afogamento etc.
Sempre damos uma importância a todas as ocorrências, mas a prioridade é a vida.

PN - Em média, um chamado é atendido em quanto tempo?
Aí depende da distância de deslocamento. Como atendemos toda a Região Carbonífera e interior de outros municípios, não mencionados a BR 290 e RS 401, por exemplo. Quando recebemos um chamado em Butiá, a média é de 28 minutos.

PN - Se tivesses que fazer um desabafo, qual seria?
Que a sociedade dê o mínimo de reconhecimento para aqueles que guarnecem e zelam pelas suas vidas. Não lembrem dos bombeiros e da polícia somente quando precisarem, que não digam que não trabalhamos, porque quando trabalhamos é com a maior dedicação do mundo, e quando trabalhamos é na desgraça de outro. Lembrem-se de nós quando forem bater na suas portas pedindo votos, e peçam para eles melhorias para os bombeiros. Assim, além da dedicação, poderemos oferecer também condições dignas de socorro.