Longevidade
em alta
Aos 81 anos, Noêmia não se destaca apenas
pela idade, mas também pela paixão em viver uma vida plena,
sempre na busca de novos desafios Viviane Bueno
Com a voz mansa,
ela pergunta, participa e opina. Dificilmente deixa de assistir a uma
aula. Ela fez uma escolha, deixou o rótulo de fazer somente tricôs
e crochês. No auge de seus 81 anos, Noêmia Nunes dos Santos
não apenas é um exemplo de longevidade, mas sim, exemplo
de que nada na vida, pode servir de empecilho.
Um pouco tímida, aos poucos vai revelando a sua história.
Natural de São Jerônimo, do distrito da Quitéria,
lá viveu por cerca de 50 anos. Nem mesmo os longos caminhos impostos
para quem mora no interior a impediram de estudar. Tomando chimarrão
com seu pai, aprendeu as primeiras letras. A partir daí, a cada
palavra que ia descobrindo, a paixão pelos estudos só
aumentava.
- Meus pais sempre se preocuparam em educar os filhos. Sempre gostei
da escola. Teve uma vez que meu pai pagou uma professora particular
para me dar aulas – lembra Noêmia.
Com os estudos já bem avançados, a menina que se apaixonou
pelos livros, queria que seu sentimento ultrapassasse as barreiras de
sua alma. Para que seu amor se espalhasse, tornou-se professora e disseminou
dignidade no interior de São Jerônimo.
- Tinha muita gente analfabeta. Pelo menos ler e realizar as operações
matemáticas pude lhes ensinar – revela.
Durante 25 anos, essa foi sua missão. Pela falta de investimentos
governamentais, a escola era na sua própria casa.
- A gente colocava umas mesas compridas para acomodar as pessoas. Todo
mundo ajudava. Os vizinhos, os pais das crianças - recorda.
Ajudando as pessoas a traçarem uma história mais digna
de vida, ela também ia escrevendo a sua. Casou-se e teve sete
filhos. As distantes estradas do interior foram um obstáculo
para salvar a filha de dois anos. Com os olhos marejados de uma mãe
que perde um filho, Noêmia encontrou forças para continuar
vivendo.
Passados 50 anos morando no interior, foi para Charqueadas. Viúva
há seis anos, os filhos lhe presentearam com 13 netos e três
bisnetos. Morando sozinha, mas sempre com parentes por perto, não
abre mão de cuidar da casa, da horta e de conversar com os filhos
e vizinhos.
Os percalços ao longo do caminho não tiraram a vontade
de Noêmia aprender mais e mais. Aluna do curso “Mulheres
charqueadenses: trabalho e transformAÇÃO” promovido
pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), ela dá exemplo
de que a educação modifica a vida das pessoas.
- Não gostava que meus alunos faltassem à aula, por isso,
eu também não falto - afirma.
A coordenadora do curso, Andreia Colares, ressalta a vitalidade de Noêmia.
- Ela sempre vem para as aulas vestindo a camiseta da escola. Sente-se
realmente como aluna do IFsul – diz Andreia.
Desde maio desse ano, todas as sextas-feiras, Noêmia tem compromisso
marcado. Das 14h30min às 16h30min, ela se reúne com as
colegas do curso para descobrir algo novo. Nem a aula da última
sexta-feira, que tratou sobre doenças sexualmente transmissíveis,
a inibiu de mostrar sua opinião.
- Com 81 anos, ela é muito participativa e ativa. Nas aulas,
ela anota, faz perguntas. É nossa companheira. É alegre
e solidária – declara a colega de curso Vera de Oliveira.
Ansiosas pela formatura do curso, que será realizada no dia nove
do próximo mês, as alunas esperam ouvir uma poesia da colega
Noêmia. A solenidade não será apenas a entrega de
um certificado, mas sim, o resultado da força de vontade de aprender
de uma jovem senhora de 81 anos.
Escrevendo um livro sobre sua infância, ela faz planos para o
futuro. Ainda sem previsão de lançamento, ela coloca no
papel suas vivências. O desejo de ter um blog a motiva, a cada
dia, a aprender um pouco mais. Para realizar seu desejo, já comprou
um computador e assistiu a algumas aulas de informática. Com
a ajuda de familiares, suas histórias não estarão
apenas em uma página de livro, ganharão a notoriedade
do mundo virtual.
Seus fios de cabelo branco e seu rosto afável são o resultado
de uma trajetória de vida que merece servir de exemplo. Não
é apenas a longevidade que a destaca, mas sim, a paixão
em viver uma vida plena, enfrentando a cada curva, novos desafios.
Impressões da repórter
Muitos têm
a impressão errada que um jornalista precisa ser especialista
em fazer perguntas. Ser jornalista, para mim, é antes de tudo
saber ouvir, já dizia Eliane Brum. Eu ficaria horas e horas ouvindo
as histórias de dona Noêmia naquela tarde de sexta-feira.
Eu que convivi muito pouco com minhas avós, das quais tenho lembranças
remotas, fiz de dona Noêmia minha avó naqueles minutos
em que compartilhamos nosso tempo. Nada melhor para um jornalista do
que conhecer histórias de vida. A cada pauta apurada, mudamos
nossa maneira de olhar o mundo e as pessoas. Eu que estava preocupada
com o horário, afinal de contas, tirei dona Noêmia da aula,
corri contra o tempo para que ela retornasse para sua espécie
de santuário, ainda bem que chegou a tempo de apresentar um trabalho
junto com suas colegas. De tudo o que ouvi de dona Noêmia, de
seus desejos, para um deles eu vou torcer contra. Aos 81 anos, ela disse
que quer viver até aos 82, mesma idade de quando seu marido partira.
Nada disso dona Noêmia. Muitas pessoas ainda precisam conhecer
suas histórias. Com seu espírito de professora, ainda
tem muito a ensinar para os que estão ao seu redor. A jornalista
que tenta colocar no papel o seu olhar sobre o fato, buscando a lenda
da objetividade, não se conteve em expressar sua opinião
neste espaço. Foi um prazer conhecer “vó”
Noêmia.
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