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Região Carbonifera, terça-feira, 29 novembro, 2011
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Longevidade em alta
Aos 81 anos, Noêmia não se destaca apenas pela idade, mas também pela paixão em viver uma vida plena, sempre na busca de novos desafios

Viviane Bueno

Com a voz mansa, ela pergunta, participa e opina. Dificilmente deixa de assistir a uma aula. Ela fez uma escolha, deixou o rótulo de fazer somente tricôs e crochês. No auge de seus 81 anos, Noêmia Nunes dos Santos não apenas é um exemplo de longevidade, mas sim, exemplo de que nada na vida, pode servir de empecilho.
Um pouco tímida, aos poucos vai revelando a sua história. Natural de São Jerônimo, do distrito da Quitéria, lá viveu por cerca de 50 anos. Nem mesmo os longos caminhos impostos para quem mora no interior a impediram de estudar. Tomando chimarrão com seu pai, aprendeu as primeiras letras. A partir daí, a cada palavra que ia descobrindo, a paixão pelos estudos só aumentava.
- Meus pais sempre se preocuparam em educar os filhos. Sempre gostei da escola. Teve uma vez que meu pai pagou uma professora particular para me dar aulas – lembra Noêmia.
Com os estudos já bem avançados, a menina que se apaixonou pelos livros, queria que seu sentimento ultrapassasse as barreiras de sua alma. Para que seu amor se espalhasse, tornou-se professora e disseminou dignidade no interior de São Jerônimo.
- Tinha muita gente analfabeta. Pelo menos ler e realizar as operações matemáticas pude lhes ensinar – revela.
Durante 25 anos, essa foi sua missão. Pela falta de investimentos governamentais, a escola era na sua própria casa.
- A gente colocava umas mesas compridas para acomodar as pessoas. Todo mundo ajudava. Os vizinhos, os pais das crianças - recorda.
Ajudando as pessoas a traçarem uma história mais digna de vida, ela também ia escrevendo a sua. Casou-se e teve sete filhos. As distantes estradas do interior foram um obstáculo para salvar a filha de dois anos. Com os olhos marejados de uma mãe que perde um filho, Noêmia encontrou forças para continuar vivendo.
Passados 50 anos morando no interior, foi para Charqueadas. Viúva há seis anos, os filhos lhe presentearam com 13 netos e três bisnetos. Morando sozinha, mas sempre com parentes por perto, não abre mão de cuidar da casa, da horta e de conversar com os filhos e vizinhos.
Os percalços ao longo do caminho não tiraram a vontade de Noêmia aprender mais e mais. Aluna do curso “Mulheres charqueadenses: trabalho e transformAÇÃO” promovido pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), ela dá exemplo de que a educação modifica a vida das pessoas.
- Não gostava que meus alunos faltassem à aula, por isso, eu também não falto - afirma.
A coordenadora do curso, Andreia Colares, ressalta a vitalidade de Noêmia.
- Ela sempre vem para as aulas vestindo a camiseta da escola. Sente-se realmente como aluna do IFsul – diz Andreia.
Desde maio desse ano, todas as sextas-feiras, Noêmia tem compromisso marcado. Das 14h30min às 16h30min, ela se reúne com as colegas do curso para descobrir algo novo. Nem a aula da última sexta-feira, que tratou sobre doenças sexualmente transmissíveis, a inibiu de mostrar sua opinião.
- Com 81 anos, ela é muito participativa e ativa. Nas aulas, ela anota, faz perguntas. É nossa companheira. É alegre e solidária – declara a colega de curso Vera de Oliveira.
Ansiosas pela formatura do curso, que será realizada no dia nove do próximo mês, as alunas esperam ouvir uma poesia da colega Noêmia. A solenidade não será apenas a entrega de um certificado, mas sim, o resultado da força de vontade de aprender de uma jovem senhora de 81 anos.
Escrevendo um livro sobre sua infância, ela faz planos para o futuro. Ainda sem previsão de lançamento, ela coloca no papel suas vivências. O desejo de ter um blog a motiva, a cada dia, a aprender um pouco mais. Para realizar seu desejo, já comprou um computador e assistiu a algumas aulas de informática. Com a ajuda de familiares, suas histórias não estarão apenas em uma página de livro, ganharão a notoriedade do mundo virtual.
Seus fios de cabelo branco e seu rosto afável são o resultado de uma trajetória de vida que merece servir de exemplo. Não é apenas a longevidade que a destaca, mas sim, a paixão em viver uma vida plena, enfrentando a cada curva, novos desafios.


Impressões da repórter

Muitos têm a impressão errada que um jornalista precisa ser especialista em fazer perguntas. Ser jornalista, para mim, é antes de tudo saber ouvir, já dizia Eliane Brum. Eu ficaria horas e horas ouvindo as histórias de dona Noêmia naquela tarde de sexta-feira. Eu que convivi muito pouco com minhas avós, das quais tenho lembranças remotas, fiz de dona Noêmia minha avó naqueles minutos em que compartilhamos nosso tempo. Nada melhor para um jornalista do que conhecer histórias de vida. A cada pauta apurada, mudamos nossa maneira de olhar o mundo e as pessoas. Eu que estava preocupada com o horário, afinal de contas, tirei dona Noêmia da aula, corri contra o tempo para que ela retornasse para sua espécie de santuário, ainda bem que chegou a tempo de apresentar um trabalho junto com suas colegas. De tudo o que ouvi de dona Noêmia, de seus desejos, para um deles eu vou torcer contra. Aos 81 anos, ela disse que quer viver até aos 82, mesma idade de quando seu marido partira. Nada disso dona Noêmia. Muitas pessoas ainda precisam conhecer suas histórias. Com seu espírito de professora, ainda tem muito a ensinar para os que estão ao seu redor. A jornalista que tenta colocar no papel o seu olhar sobre o fato, buscando a lenda da objetividade, não se conteve em expressar sua opinião neste espaço. Foi um prazer conhecer “vó” Noêmia.