Paixão
sobre duas rodas
Conheça a relação de amor de Mauro e Jaqueline com
o motociclismo Viviane Bueno
A sensação
é de liberdade. Sentir o vento bater no rosto, conhecer caminhos
que não sairão mais da memória, faça chuva
ou sol. O ronco do motor conduz para uma outra atmosfera, é inspiração.
O espírito de motociclista é o que motiva o casal Mauro
Luiz Silva, 30 anos, e Jaqueline Lima, 31, casados há seis, moradores
de Charqueadas, a viverem a cada curva, momentos de emoção.
Mauro, desde pequeno, sonhava em ter uma moto. Através das páginas
de revistas, ele já se imaginava pilotando uma. E o menino cresceu
e a fantasia virou realidade. As tatuagens no corpo não deixam
dúvidas, para ele a vida é uma paixão sobre duas
rodas.
Cada palavra do texto de Fernando Drumonnd parece descrever a vida de
Mauro. Ele e a esposa, que o acompanhou nas viagens desde a época
de namoro, são integrantes do Moto Grupo Renegados, de Charqueadas.
Muito mais que liberdade, o casal vê no motociclismo amizades
verdadeiras e companheirismo.
- Não me vejo sem moto. Quando viajamos conhecemos outros motociclistas,
de diferentes lugares. Quando paramos em um posto de gasolina ao longo
da estrada, fazemos amizades com outros grupos. A sensação
é que já nos conhecíamos de longa data. Isso não
acontece quando saímos de carro- declara Mauro.
Vestido a caráter, com capacete, capa, colete, jaqueta, luvas
e botas de couro, o casal não troca a moto pelo conforto de um
carro com ar-condicionado.
- Paixão é paixão – diz Jaqueline.
Quando chega o final de semana, é como se uma magia tomasse conta
de suas vidas. A rotina agitada da semana, o stress do cotidiano, dão
lugar a aventura de trilhar novos caminhos.
- Têm pessoas que ficam irreconhecíveis quando saímos.
Vestem até fantasia. Soltam os bichos – conta Mauro.
Para os motociclistas, o importante não é chegar ao destino
planejado, mas sim, curtir cada segundo da jornada. Assistindo a um
vídeo, Mauro fala que seu teto solar é o próprio
sol. A moto, que durante a semana fica guardada na sala de estar de
sua casa, aos finais de semana ganha as ruas, à procura de novas
aventuras.
- Fazemos também moto passeios. Já conhecemos muitas cidades.
O importante também é que o moto grupo ajuda outras pessoas.
Doa alimentos. Pratica a fraternidade – conta Mauro.
Ser motociclista é também praticar a educação
no trânsito, ser prudente ao dirigir.
- Tem que ter responsabilidade e, acima de tudo, cuidado com a bebida.
Se viajamos e voltamos no mesmo dia, não ingerimos bebida alcoólica.
Só bebemos quando posamos em alguma cidade durante o passeio
– destaca Mauro.
Nem mesmo os anos de experiência em cima de uma moto tiram dele
a ansiedade de esperar pela próxima aventura.
- Uma noite antes de sair eu não consigo dormir, olhando o relógio.
Conto os segundos para chegar o final de semana – diz ele.
Jaqueline conta que antes de comprar a atual moto, de 600 cilindradas,
Mauro dormia agarrado ao cartaz dela, sonhando em pilotá-la.
- Quando ele comprou, dormiu na sala, olhando para a moto e lendo o
manual – revela Jaqueline.
O mural e o quadro luminoso que o casal possui em casa revelam que o
motociclismo é um estilo de vida.
- Fazemos janta na casa de outros integrantes do moto grupo para conhecermos
suas famílias. Fazemos também sopão no inverno
para ajudar nas despesas das viagens. Quando alguém chega em
nossa casa, sabemos quem é pelo barulho da moto – ressalta
Jaqueline.
Muito mais do que fugir do stress, ao subir em uma moto, o casal encontra
a satisfação de viver. Para eles, não importa se
o céu está azul ou se a chuva acumula poças ao
longo da estrada. O importante é sentir a adrenalina. Planejar
que caminhos conhecerão. Além do ronco do motor, o combustível
que os embala são as músicas das bandas Creedence e Steppenwolf,
com a canção Born to be wild, que na tradução
significa nascido para ser selvagem.
Depois das inúmeras cidades que já conheceram no Estado
e de uma visita à Argentina, o casal agora planeja viajar, no
próximo mês, para a cidade de Laguna, em Santa Catarina.
- Serão dois dias em cima da moto – fala Mauro.
Não há dúvidas de que a filha Samara, de dois meses,
será também apaixonada pela vida sobre duas rodas. O incentivo
dos pais ela já tem.
- Quando a Jaque não quiser sair, vou levar a Samara comigo –
brinca Mauro.
Para este final de semana o programa já está garantindo.
As motos que dão um colorido a mais em Charqueadas no mês
de novembro, revelam que é chegada a hora da 5ª edição
do Moto Fest, que reúne motociclistas de várias partes
do RS e, inclusive, de países da América Latina. Mauro
e Jaqueline, juntamente com os integrantes do Renegados, já planejam
cada instante que participarão do encontro. E lá vai o
casal vestir suas roupas de couro, dar um brilho na moto, e com a batida
inconfundível de “Born to be wild”, tornam-se cúmplices
sobre duas rodas, pois nem a chuva ou o frio são empecilhos para
pegar a próxima estrada. Ao observar pelo espelho retrovisor,
não é apenas paisagem que fica para trás, mas também
o medo.
Até mesmo a pequena Samara já entra no clima do motociclismo.
A moto que fica guardada na sala da casa, ganha às ruas no final
de semana
Trecho do
poema Motociclista, de Fernando Drummon
Estranho personagem, esse
tal de motociclista...
Difícil crer que seja possível preferir o desconforto
de uma motocicleta, onde se fica instavelmente instalado sobre um banquinho
minúsculo, tendo que fazer peripécias para manter o equilíbrio
e torcendo para que não haja areia na estrada. Como podem achar
bom transportar o passageiro, dito garupa, sem nenhum conforto ou segurança,
forçando o coitado a agarrar-se à pança do motociclista,
sujeitando ambos a toda sorte de desconfortos, como chuva, ou mesmo
aquela "ducha" de água suja jogada pelo carro que passa
sobre a poça ao lado, ou de ficarem inalando aquele malcheiroso
escapamento dos caminhões em uma avenida movimentada como a marginal
Tietê, por exemplo, sem falar da necessidade de se utilizar capas,
casacos e capacetes, mesmo naqueles dias de calor intenso.
Isso tudo enquanto convivemos numa época em que os automóveis
nos oferecem toda sorte de confortos e itens de segurança. Ar-condicionado,
que permite que você chegue ao trabalho sem estar fedendo e suado;
"air bags", barras laterais, cintos de três pontos,
etc., que conferem ao passageiro uma segurança mais do que necessária;
som ambiente; possibilidade de conversar com os passageiros (OS passageiros...)
sem ter que gritar e assim por diante.
Esquisito...
Prestei mais atenção e descobri que eles frequentemente
se uniam e reuniam, como se fossem amigos de longa data, daqueles que
temos tão poucos e de quem gostamos tanto. Senti a solidariedade
que os une. Vi também que, por baixo de muitas daquelas roupas
de couro pesadas, faixas na cabeça, luvas, botas, correntes e
caveiras, havia pessoas de todos os tipos, incluindo médicos,
juízes, advogados, militares, etc. que, naquele momento, em nada
faziam lembrar os sisudos, formais e irrepreensíveis profissionais
que eram no seu dia a dia. Descobri até alguns colegas, a quem
jamais imaginei ver paramentados tão estranhamente.
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