O colecionador de gibis
Em meio aos seus 600 exemplares, João Adolfo
viaja no tempo lendo as histórias de Tex Willer
Viviane Borba Bueno
Ele tinha nove
anos quando leu o primeiro gibi. A história intitulada “Flor
da Morte”, impactou o menino. Lidos na casa de parentes do bairro
Sarandi, em Porto Alegre, os quadrinhos que falavam sobre uma flor que
matava, permaneceram guardados em sua memória com riqueza de
detalhes. Algum tempo depois, em um sebo na Capital, ele viu uma gravura
familiar. Tratava-se da revista que havia conhecido quando criança.
E a partir daí, as linhas que desenham a vida na ficção,
mesclaram-se com os traços da vida real. Esse é apenas
o início da trajetória do colecionador apaixonado pelas
aventuras do personagem de faroeste Tex Willer, João Adolfo Guerreiro.
O vento naquela tarde de primavera não só balançava
as folhas das árvores ou o cabelo das pessoas que transitavam
na rua, mas também conduziam os pensamentos do morador de Charqueadas,
de 43 anos, ao lembrar-se de tempos distantes.
A estante no escritório de João já está
pequena para os cerca de 600 exemplares que coleciona. O gibi de origem
italiana, criado em 1948, e com 40 anos de publicação
ininterruptos no Brasil, fez parte de sua adolescência.
- Nas décadas de 70 e 80 existiam muitos gibis nas bancas. Os
do Tex vendiam em torno de 150 mil exemplares por mês. Foi algo
muito presente na minha vida – conta Guerreiro.
Além das histórias em que grande parte do enredo se passava
no Arizona, estado americano localizado na região sudoeste do
país, a qualidade dos desenhos e o preto e branco dos quadrinhos
chamavam a atenção de João.
- O traço é realista. Esteticamente me agrada muito –
revela.
Mas foi em 2008 que ele se motivou a colecionar as aventuras de Tex.
Pelo menos uma vez por mês, nas sextas-feiras, a presença
de João na banca do centro de Charqueadas é garantida
para comprar o seu exemplar do Tex.
- A dona da banca já deixa um exemplar guardado pra mim - diz.
Colecionador de todos os formatos do Tex, ele guarda relíquias,
como as edições de número 3 e 5, do ano de 1971.
- São raras, publicadas pela editora Vecchi – fala.
Entre as histórias que mais gosta destacam-se “Conspiração
Contra Custer”, “As grandes Pradarias” e “A
Batalha do Little Bighorn”, que inicia no número 406 e
segue até o 408.
Relata o encontro de Tex com um dos personagens reais da epopeia da
fronteira americana, o famoso general americano George Armstrong Custer.
Contada em flashback, Tex recorda sua aventura ao lado de Custer, que
procurava o ouro em Black Hills, enquanto alguns tramavam a morte do
velho general fazendo recair a culpa sobre os índios.
- É uma das minhas preferidas, pois consegue inserir um personagem
fictício em uma história verídica - afirma.
“O vale do terror” também faz parte das edições
que João mais gosta, mas esta, não pelo texto, mas sim
pela representação gráfica.
- A história é muito forte, mas o desenho é maravilhoso.
Rico em detalhes- pontua.
Para ele, a narrativa em quadrinhos, é um encontro interessante
entre a literatura e a expressão gráfica.
- É um casamento bem legal dos dois. O gibi consegue unir texto
com a arte visual – destaca.
João, formado em Sociologia, é um ícone bastante
presente na cena cultural de Charqueadas. Músico e compositor,
ele não somente admira a literatura, como também contribui
com ela escrevendo crônicas. Amante dos livros, além de
se identificar com Tex Willer, faz da leitura do gibi uma espécie
de ritual.
- Quando as aventuras de Tex se passam no calor do Arizona, gosto de
lê-las no verão. Quando o cenário é o Canadá,
curto ler no inverno, em dias chuvosos – confessa.
Sua coleção chamou atenção inclusive de
um blog de Portugal, especializado em Tex, que convidou João
para fazer uma matéria, em agosto deste ano.
- Foi com muita satisfação pessoal que dei essa entrevista,
um convite generoso que me surpreendeu, realmente não esperava
– lembra.
Com canções de sua autoria de pano de fundo, o colecionador
volta a ser criança. O vento que ainda sopra, faz João
viajar para o mundo do heroi em quadrinhos. E, dando asas à imaginação,
ele mergulha nas histórias e aventuras em terras longínquas,
como se um dia sonhasse ele próprio virar o personagem principal
de um gibi.
vivianebueno.portal@terra.com.br
Saiba mais detalhes de Tex
Quem é Tex Willer?
Tex Willer é um personagem dos quadrinhos italianos. Surge nas
bancas em setembro de 1948 e já no primeiro quadrinho o vemos
decidido, pistola em punho: "Por todos os diabos, será que
ainda estão nas minhas costas?". Diferente dos herois da
época, Tex é um homem duro. Sem hesitações,
julgando as pessoas com um único olhar, não é um
personagem destinado às crianças, mas a um público
mais maduro. O linguajar de Tex é também bastante duro
e violento e nos mostra um Tex (na versão não-censurada)
mais “vil” que o de hoje. Na realidade, Tex é um
justiceiro decidido, capaz de agir fora da lei se a situação
o exigir, como no episódio que contou a sua origem (TEX-023).
Ranger do Texas, chefe dos Navajos, agente indígena, enfim, um
homem temido e respeitado, no Oeste tido como uma lenda, conhecido por
muitos como o homem-revólver, dado a rapidez e precisão
de seus Colts'45, e também como defensor dos injustiçados,
quer sejam eles índios ou brancos. No Brasil, Tex surge nos anos
50 na Revista Júnior, com o nome de Texas Kid. É publicado
de 1950 a 1957. É relançado depois em revista própria
em 1971, pela Editora Vecchi.
Quem criou Tex?
Em 1948, a senhora Tea Bonelli pretendia modificar sua linha editorial,
criando novas séries e parando com as meras reimpressões
de histórias antigas, que já haviam esgotado seu público.
Dessa forma, chama a Milão o desenhista Aurelio Gallepini (que
trabalhava para a Nerbini antes da guerra) e confia os textos a seu
ex-marido, G.L. Bonelli, notável roteirista. Juntos, ambos criam
duas séries: Occhio Cupo (série ambientada nos 700 norte-americanos,
entre piratas e índios), carro-chefe da Editora (e que durou
menos de um ano), e Tex, um western.
Onde se desenvolvem as aventuras de Tex?
Tex, depois de inúmeras aventuras e peripécias, torna-se
chefe dos Navajos e fixa residência no Arizona. Seu principal
campo de atuação devia ser o sudoeste americano, com seus
desertos ardentes e pequenos assentamentos de homens brancos. Entretanto,
Tex realiza freqüentes incursões fora daquela zona, como
pelos habituais México e Canadá, sem deixar de lado cidades
como São Francisco, New Orleans, Washington ou lugares fascinantes
como o Yucatán. Ocasionalmente, Tex anda por diversos outros
lugares, como Boston, o istmo do Panamá (TEX-163, TEX-164 e TEX-165),
na Ilha Nahuloa, localizada no Pacífico ocidental no continente
da Oceania (TEX-118), ou ainda na América do Sul, na Argentina
e Bolívia (TEX-008).
Quais as habilidades de Tex?
Forte, sobretudo. Tex é um homenzarrão, capaz de jogar
qualquer um à lona. Além disso, é corajoso e veloz,
seja com a pistola, seja com o rifle (consegue vencer até Buffalo
Bill - TEX-028). É também inteligente e astuto, como todos
os heróis, de quem traz uma característica fundamental:
nunca morre, no máximo é atingido de raspão ou
com pouca gravidade. Tendo sido um cowboy em suas origens, é
hábil com o laço e também com os cavalos selvagens
(TEX-023).
Tipos de formato
* Tex Normal, iniciou em 1971, pela Editora Vecchi e continua sendo
publicado até os dias atuais, tendo passado pelas editoras RGE,
Globo e atualmente Editora Mythos.
* Tex Normal Segunda Edição, republicação,
série fechada que foi de 1 a 149.
* Tex Coleção, série que republica as aventuras
de Tex na ordem em que foram publicadas na Itália, aventuras
em continuação.
* Tex Edição Histórica, série que republica
em histórias completas e com mais páginas as aventuras
de Tex Coleção (veja foto do número 1 neste artigo).
* Tex Ouro, série que republica as aventuras de Tex da fase áurea,
só com histórias completas.
* Tex Gigante, republica, em tamanho gigante, aventuras que saíram
na Itála na série Gigante, geralmente com desenhistas
convidados e fora do staff regular de Tex.
* Almanaque Tex, publica as aventuras inéditas de Tex deixadas
para trás pelas editoras Vecchi, Rio Gráfica e Globo,
intercalando alguma republicação ou aventuras especiais
recentes.
* Tex Edição de Férias, série que republica
as aventuras mais pedidas pelos leitores, sempre com histórias
completas
* Tex Minisséries, publica em dois números aventuras especiais
e inéditas com mais de 300 páginas.
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