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Região Carbonifera, terça-feira, 25 outubro, 2011
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NOVOS INVESTIMENTOS
“Nos aspectos geográficos Charqueadas estava preparada para receber o empreendimento”.
Em entrevista, o consultor de empresas, Eduardo Souza de Nahuys Coelho, explica porque o município chamou a atenção das empresas de fabricação de plataforma de petróleo.

Rodrigo Ramazzini

Foi o efeito “onde passa um boi, passa uma boiada”. Ou melhor, onde se instala uma empresa, se instala várias. Assim, pode ser definida a nova estrutura industrial que começa a nascer no município de Charqueadas, voltada para a fabricação de módulos para plataforma de petróleo. Depois do anúncio da instalação da unidade da IESA Óleo & Gás, há alguns meses, em uma área na Granja Carola, a chegada de novos empreendimentos deslanchou na cidade. A empresa Engecampo Engenharia Industrial, confirmou no início do mês que, também, construirá uma fábrica no município. Ainda, é sabido que outras empresas estão em processo de negociação para adquirirem área e incentivos fiscais para a instalação de unidades em Charqueadas. As confirmações devem ocorrer nas próximas semanas.
Para entender os motivos que fizeram as empresas do ramo de fabricação de módulos para plataforma de petróleo se interessar pelo município, o Portal de Notícias entrevistou o Consultor de Empresas, Eduardo Souza de Nahuys Coelho, que foi uma espécie de “desbravador” no caso IESA, auxiliando a empresa em todas as etapas no processo de instalação. Confira a entrevista realizada por email:

Portal de Notícias (PN) - Por que as empresas do ramo de fabricação de módulos para plataforma de petróleo escolheram o município de Charqueadas para a instalação de unidades?

Eduardo Coelho (EC) - Com a descoberta do Pré-Sal, além do aumento das estimativas de reservas nos campos de petróleo atualmente em produção, a Petrobrás se obrigou, na condição de empresa brasileira ligada ao segmento de exploração e produção petrolífera, a investir na construção de plataformas de petróleo. Ainda, é claro, de embarcações off-shore para o atendimento operacional dessas plataformas que entrarão em operação nos próximos anos. Como a legislação brasileira que regula o segmento de exploração e produção de petróleo exigiu das empresas à contratação de equipamentos com um mínimo de conteúdo nacional, houve um estímulo aos fabricantes de equipamentos, módulos e plataformas de petróleo, a procurarem em território brasileiro áreas capazes de receberem, com o menor custo de instalação, plantas industriais com capacidade de atender esta demanda por plataformas e embarcações voltadas para o segmento de exploração e produção de petróleo. O Estado do RS não poderia ficar fora dessa nova oportunidade de desenvolvimento. Sendo assim vem investindo, mesmo que modestamente e limitado as suas condições financeiras, em incentivar empresas do Brasil e do Exterior a abrirem seus negócios em solo gaúcho, iniciando por Rio Grande. Como nesta cidade, a capacidade de instalação está praticamente tomada, além da escassez de oferta de mão-de-obra especializada/qualificada, esses fabricantes procuraram identificar novos locais no RS. As pesquisas demonstraram existir dois municípios potencialmente favoráveis à indústria naval e do petróleo, que seria o município de Pelotas e de Charqueadas, pelas características geográficas naturais, ou seja, área de terras disponíveis em quantidade e servidas por água, através de rios e canais de razoável calado, que permitem a navegação interior de embarcações fluvio-marítimas até o Porto de Rio Grande, quiçá a outros portos brasileiros e estrangeiros. Entre Pelotas e Charqueadas, ainda, o segundo município possui maiores vantagens, pois os terrenos disponíveis estão localizados acima das cotas máximas de inundação, além de franco acesso rodoviário às principais estradas estaduais e federais, bem como estar próximo a Região Metropolitana de Porto Alegre, onde é maior a oferta de mão-de-obra especializada e de escolas formadoras de material humano para o segmento metal-mecânico. As áreas em Pelotas enfrentam alagamentos em épocas de muita chuva, cheia dos rios e elevação dos níveis do Oceano Atlântico e, são formadas por terrenos de baixa resistência geológica. Também, as vias de acesso ao porto são precárias e estreitas, dificultando o tráfego de veículos pesados.

(PN) - Quais aspectos são levados em conta no processo de escolha de uma área?

(EC) - Área quadrada mínima; terrenos resistentes ao tráfego pesado; acesso ao mar, mesmo que por via fluvial; hidrovia com calado mínimo para tráfego de embarcações flúvio-marítimas e rebocadores oceânicos de grande porte; disponibilidade a mão-de-obra especializada e região com escolas estruturadas para formação de material humano para o segmento metal-mecânico (soldadores / mecânicos ajustadores).

(PN) - Em quais dos citados o município se destaca?

(EC) - Em todos!

(PN) - Charqueadas estava preparada para receber esse tipo de empreendimento? Como está a infraestrutura? Por quê?

(EC) - Nos aspectos geográficos Charqueadas estava preparada para receber o empreendimento. No aspecto de disponibilidade de mão-de-obra especializada, o município tem capacidade limitada em função da demanda que ocorrerá por ocasião do início das operações, porém isso é uma oportunidade de geração de emprego e renda para as comunidades dos municípios vizinhos, bem como para a região metropolitana de Porto Alegre, que será demandada no caso de falta de oferta de profissionais qualificados.
No aspecto de infraestrutura de ensino, o município possui três excelentes escolas formadoras de mão-de-obra que, com os devidos ajustes curriculares, atenderão anualmente as demandas por novos operários qualificados.
Naquilo que o município for deficiente, leva a vantagem de estar próximo a região metropolitana, capaz de suprir essas faltas sem maiores dificuldades.

(PN) - Em quais aspectos o município precisa melhorar para manter as atuais e atrair novas empresas?

(EC) - Investimentos nas escolas técnicas para adequação dos currículos e, complemento do quadro docente para atender especificamente a formação de mão-de-obra para o segmento metal- mecânico da indústria do petróleo e gás.
Reforçar as estruturas hospitalares. Planejar o sistema habitacional, facilitando a construção de novas moradias. Reforçar as entidades de ensino fundamental e médio para receberem os filhos dos operários que trabalharão nas novas indústrias.

(PN) - Por que a escolha da área na Granja Carola? O quanto atrapalha o fato de o terreno ter servido para a plantação de arroz?

(EC) - Por um estudo feito no ano de 1980, por uma empresa especializada em terminais portuários, contratada pela Portobrás, foi identificada a Granja Carola como a melhor área para a instalação de um terminal fluvial capaz de receber embarcações do tipo balsas ou chatas fluvio-marítimas de grande porte, que são necessárias para o transporte de módulos de plataformas de petróleo.
O fato de o terreno ter servido para a orizicultura não atrapalha a instalação de uma unidade industrial para fabricação de módulos, pois a área estava acima das cotas de inundação do Rio Jacuí e era irrigada através de canais, que ao serem fechados e drenados, tornaram a área seca e compactada, suportando o tráfego pesado.

(PN) - A área onde está instalada a Jacuí I serviria para receber empresas do ramo?

(EC) - Serviria desde que recebesse as devidas adequações, pois foi preparada para a instalação de uma usina termelétrica, com altos investimentos em aterros que elevaram o terreno muito acima das cotas médias do nível do Rio Jacuí.
(PN) - Qual a importância do Rio Jacuí nesse processo?

(EC) - Será o meio navegável entre a unidade industrial onde os módulos de plataformas serão construídos até o Porto de Rio Grande, onde serão integrados aos oito cascos das plataformas do tipo FPSO, que lá serão construídos, caso venha a IESA ganhar a concorrência aberta recentemente pelas subsidiárias da Petrobrás, denominadas Guará BV e Tupi BV.
No futuro, será o meio navegável para o transporte de módulos ou qualquer outro grande equipamento fabricado na unidade de Charqueadas até o Porto de Rio Grande, ou para outros portos brasileiros ou até mesmo internacionais, a partir do momento que será possível a atracação de balsas fluvio-marítimas de grande porte no terminal do município e sua navegação pelo Rio Jacuí, passando pelo estuário Guaíba, Lagoa dos Patos até a saída para o Oceano Atlântico nos Molhes da Barra no Canal de Rio Grande.

(PN) - Os incentivos fiscais oferecidos pela prefeitura atualmente são fatores de atração para as empresas? Ou precisam melhorar? E do Estado?

(EC) - Todo e qualquer benefício, seja ele municipal ou estadual, são sempre representativos na formatação dos preços nas propostas comerciais numa concorrência na Petrobrás. O que precisa melhorar é a agilidade com que o Estado do RS analisa e viabiliza tais pedidos de benefícios, sejam eles financeiros, fiscais ou tributários.

(PN) - Outros municípios da região têm estrutura para receber investimentos desse ramo?

(EC) - Enquanto não houver investimento público no aumento do calado e sinalização nas hidrovias gaúchas, municípios como Triunfo, São Jerônimo, Cachoeira do Sul e todos a montante do Rio Jacuí, ficarão a margem das oportunidades, assim como Pelotas pela falta de investimentos em acessos rodoviários entre a rodovia federal BR-392 e o Porto de Pelotas, bem como no aterramento de áreas do porto, a fim de elevar as cotas para um nível acima das médias de inundação.

(PN) - A atuação do Sindical foi levada em contar na hora de escolher Charqueadas?

(EC) - Não foi avaliada esta atuação!
(PN) - A chegada da IESA provocou uma espécie de efeito cascata para a instalação de empresa do ramo no município. Há outras a caminho?

(EC) - Sempre existem empresas interessadas no investimento de indústrias para o segmento do petróleo e gás, sendo que a IESA despertou o interesse de algumas que estão em negociação com o proprietário da Granja Carola e com a Prefeitura Municipal de Charqueadas, sejam elas concorrentes ou até interessadas em serem sistemistas fornecedoras.