Balinhas
contra o vício
Amandio encontrou
uma maneira simples e divertida na luta contra o tabagismo
Viviane Bueno Ele
é conhecido nos lugares por onde passa por um hábito que
seria comum: dar balas de presente. Mas não é qualquer
bala. Elas têm um objetivo específico, que é o de
ajudar as pessoas a largar o tabagismo. A embalagem branca com as inscrições,
nas cores vermelha e preta, “PARE de Fumar Enquanto é Tempo”,
fazem do vovô Amandio uma pessoa especial.
Aos noventa anos, completados no último dia sete, Amandio Almeida
da Silveira, com a ajuda da esposa Diva Falleiro da Silva, e da filha,
Neida Marina da Silveira Lima, relembra, em sua residência, em
Charqueadas, os tempos em que o cigarro era seu companheiro. Nascido
no interior de Taquari, o vício o acompanhou desde criança.
- O cigarro é um veneno- sentencia Amandio.
Além da úlcera, o tabagismo resultou em alguns lençóis
e roupas queimadas. Mas foi o emprego no quartel, em General Câmara,
que começou a mudar os rumos de sua vida.
- Eu era muito brabo. No quartel tomei jeito na vida – confessa.
Não era apenas a rigidez das regras, pois ele admite que não
cumpria as tarefas, mas a leitura do livro “Como fazer amigos
e influenciar pessoas” de Dale Carnegie, em que mostra como melhorar
a comunicação com as pessoas tanto no âmbito profissional
como nas relações de amizade e amor, provocaram em Amandio
as primeiras reações contra o vício.
- O emprego era muito interessante pra mim. Precisava para de fumar.
O livro mudou minha maneira de ver o mundo – recorda.
Com a ajuda de um médico e com o apoio da família, Amandio
deu os primeiros passos na luta contra o tabagismo.
- Para resistir, ele sempre carregava umas baganas de cigarro. Quando
batia a vontade de fumar, ele as cheirava e logo ficava enjoado por
causa do cheiro – conta a filha Neida.
Para ela, um dos principais motivos que auxiliaram seu pai a largar
o cigarro, foi a própria maturidade.
Ele reconheceu que precisava mudar – avalia Neida.
Livre do vício há cerca de 40 anos, Amandio disse que
todo o dinheiro que gastaria na compra do cigarro, guardaria para comprar
balas e incentivar outras pessoas a também deixarem o vício.
- As balinhas eu entrego para fumantes e não fumantes. É
uma maneira de contribuir a favor da saúde – diz Amandio.
Conhecido nos lugares que frequenta, como bancos, clínicas e
supermercados como o vovô das balinhas, o senhor de voz tranquila,
seu semblante pouco lembra os tempos de brabeza que ele mesmo relatara.
As guloseimas, que ele já distribuía para quem passasse
em sua frente, tornaram-se personalizadas há cerca de um ano.
A ideia foi da filha Neida, que durante uma viagem descobriu uma empresa
em São Paulo que fazia o trabalho e logo encomendou uma embalagem
exclusiva para seu pai.
Com os bolsos cheios de balas, Amandio, com um gesto aparentemente simples,
mostra a grandeza de sua iniciativa. Não é apenas a entrega
de uma balinha que o torna diferente, mas sim, a maneira como a faz,
com carinho e mostrando através de sua própria experiência,
que adquiriu qualidade de vida ao largar o cigarro.
Ele que não pode comer balas em virtude do diabetes, tenta deixar
a vida das pessoas um pouco mais doce.
- Mas sei que ele come umas balas escondido – confessa a filha
Neida.
A dica que ele deixa, não é apenas para quem deseja largar
o vício, mas uma lição para a vida toda.
- Para viver de forma tranquila eu deixo três dicas. A primeira
é saber quem vem adiante, para nos prevenirmos. A segunda é
ter metro nos olhos, para medirmos as coisas e as consequências,
e a terceira é saber calcular, com o cálculo se conquista
muitas coisas. Com essas três dicas você terá uma
vida feliz – aconselha.
Com suas balinhas, Amandio encontra forças para continuar sua
batalha. Livrar-se do vício do cigarro não é tarefa
fácil, mas ele foi forte o bastante para vencer. As balinhas,
para muitos, além de adoçarem a vida por alguns minutos,
podem ser a chave para a liberdade.
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