
EM BUSCA DE QUALIDADE
Os caminhos da educação
Série de reportagens mostrará a realidade do ensino na Região
Carbonífera
Rodrigo Ramazzini e Viviane Bueno
O resultado de recente
pesquisa realizada pelo Ibope mostrou que 46% dos gaúchos consideram
que o investimento na área de Educação é o fator
primordial para contribuir no desenvolvimento do Estado. Se tal percepção
também refletir a opinião dos moradores da Região Carbonífera,
bem como o crescimento dos municípios daqui, que passa por essa área,
é preciso voltar com certa urgência as atenções
para o ensino, pois os indicadores educacionais mostram números preocupantes.
Para melhor traduzir essa realidade, nesta edição o Jornal Portal
de Notícias inicia uma série de reportagens que abordará
a Educação na região.
De acordo com os resultados
do último Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb), realizado no ano de 2009, a Região Carbonífera
tem muito a se preocupar com Educação. O desempenho médio
obtido pela região entre as escolas participantes da avaliação
ficou abaixo da média Estadual e Brasileira (Ver Raio-X da Educação),
tanto no ensino fundamental- anos iniciais, como nos anos finais de estudo.
Se não bastasse apenas esse indicador, outros índices acompanhados
mostram distorções gritantes, principalmente com o restante
do Rio Grande do Sul.
Para o secretário estadual de Educação, José Clóvis
de Azevedo, a reversão desses indicadores na Região Carbonífera,
bem como a melhoria na qualidade da Educação no RS, passam por
investimentos em diversos pontos e a criação de novas práticas,
como explanou recentemente em entrevista.
- A melhoria da qualidade física das escolas, a modernização
com acessos a novas tecnologias, melhora e qualifica os espaços, colocando
as redes de comunicação ao acesso de nossos professores e alunos.
A outra questão é criar uma cultura de estudo, investigação
e formação permanente de nossos educadores e a necessidade de
atualização-, explica.
O secretário ressaltou, ainda, a questão profissional, com o
pagamento do piso nacional integrado no básico dos professores e a
regularização da situação funcional com concursos,
promoções e outras questões pendentes.
Conforme o Censo Escolar de 2010, a estrutura educacional da Região
Carbonífera conta com 136 escolas entre as redes municipal, estadual,
federal e particular, e a atuação de 1950 professores nas quatro
esferas. Tudo para atender um universo de mais de 33 mil alunos nos diferentes
níveis de escolaridade.
Análise
Maria Francisca Lopes Johnson, pedagoga e coordenadora do curso de Pedagogia
da Ulbra São Jerônimo, fez um diagnóstico dos problemas
enfrentados rotineiramente nos estabelecimentos de ensino da Região
Carbonífera, apontando ações que possam melhorar a qualidade
da educação. Em documento enviado à redação
do Portal de Notícias, sob o título Problemas da escola pública:
o que podemos fazer, eis seu relato:
“Na condição
de professora da rede pública durante mais de 30 anos, sempre fui testemunha
de muitas dificuldades nas escolas, em todos os sentidos: precariedade nas
instalações físicas, carências no acervo das bibliotecas,
falta de professores e burocracia no processo para a nomeação
ou contratação dos mesmos. Esses e outros problemas vêm
persistindo, com maior ou menor intensidade, ao longo dos anos.
Parafraseando o grande Nelson Rodrigues, sempre digo aos meus alunos na Universidade
que na escola encontramos “A vida como ela é”. Lá
conhecemos um retrato fiel da situação de nossa sociedade, com
todas as suas peculiaridades. É difícil a tarefa de educar,
pois a profissão exige uma série de habilidades para lidar com
as incontáveis variáveis que desafiam o professor diariamente
em sala de aula. E ainda assim, a carreira de professor continua a não
ter a sua importância reconhecida. Uma das provas disso é que
ainda hoje é possível encontrar quem não concluiu ou
mesmo não frequentou um curso de licenciatura trabalhando com crianças
e adolescente ávidos pela aprendizagem.
Voltando a pensar em nossas escolas, acredito que muitos problemas poderiam
ser resolvidos de maneira mais simples, não apenas pelos nossos governos,
mas por todos os atores de cada comunidade escolar.
Os sistemas de ensino devem cumprir as suas responsabilidades, preenchendo
lacunas existentes em relação ao ambiente escolar e aos recursos
materiais e humanos. As escolas precisam ter salas que comportem a quantidade
de alunos prevista, sem que se criem situações embaraçosas
por falta de carteiras, espaço ou de um mínimo de conforto.
Os móveis e instalações devem estar em boas condições.
Isso significa que as escolas públicas municipais, estaduais ou federais,
em qualquer nível, deveriam ser pintadas e ter suas mobílias
reformadas ou substituídas quando necessário. Um ambiente de
ensino e aprendizagem agradável gera contentamento e satisfação,
que resultam em maior comprometimento e disposição para o trabalho.
Isso serve para professores, funcionários e também estudantes.
São indispensáveis os investimentos em bibliotecas, laboratórios
de ciências e salas de informática e que sejam projetos perenes
e não temporários ou eleitoreiros. A informática transformou
os computadores nas grandes estrelas dos projetos de renovação
e atualização das escolas. A necessidade de a escola acompanhar
o desenvolvimento tecnológico da sociedade é urgente. Para isso,
é preciso que se criem meios para que os profissionais da educação
se apropriem desses novos conhecimentos e saibam aplicá-los da forma
mais efetiva possível. É de grande importância que possamos
nos mobilizar para uma grande inclusão digital em nossas comunidades.
Mas não devemos descuidar das crianças que não conseguiram
aprender a ler, escrever, fazer cálculos simples ou ter noções
de ciências e estudos sociais que lhes permitam acesso pleno à
cidadania, à ética e à dignidade humana. As bibliotecas
devem sempre estar atualizadas e apoiadas por projetos de leitura que efetivamente
resultem no letramento dos educandos, futuros cidadãos atuantes. Monteiro
Lobato já dizia que “um país se faz com homens e livros”.
A formação continuada dos professores também deve ser
priorizada. As novas teorias da educação devem ser colocadas
em discussão para que sejam compreendidas e utilizadas pelos profissionais
da educação, desconstruindo o mito de que a teoria não
se aplica na prática de sala de aula. Com o apoio de novos conhecimentos,
a relação entre os professores e os alunos irá, com certeza,
melhorar muito. A sala de aula tornar-se-á um lugar muito mais agradável
e produtivo graças ao estímulo das novas técnicas e saberes
dos profissionais da educação.
Uma outra atitude importante seria mudar a cultura escolar em relação
aos minutos destinados ao recreio dos alunos, transformando-os em recreios
monitorados e assistidos por professores de diferentes disciplinas. Ao invés
de ser um tempo nulo para o desenvolvimento dos alunos, que tal partidas de
xadrez, damas, tênis de mesa, dominó ou atividades artísticas,
por exemplo? Uma biblioteca com jornais e revistas pode agradar aos estudantes
que queiram um pouco mais de informação, silêncio e paz.
Uma prática orientada e bem organizada de variadas modalidades esportivas
é outra boa opção para direcionar melhor a energia das
crianças e adolescentes e, quem sabe, descobrir novos talentos.
Como nos diz João Luís de Almeida Machado, doutor em Educação
pela PUC-SP, “os custos para tudo isto não são grandes,
pois são menores do que quando iniciamos novos projetos a cada quatro
anos e jogamos todo o trabalho anterior na lata do lixo por ter sido desenvolvido
pela gestão anterior, da oposição. Manter, preservar
e investir de forma ponderada e constante na educação custa
menos do que tentar reinventar a roda a cada quatro anos. Ao invés
de tentar salvar o doente com paliativos, cuidar da saúde da escola
com medidas preventivas, de forma homeopática, pode ser uma resposta
muito mais simples e, certamente, eficiente”.