
OS CAMINHOS DA EDUCAÇÃO
As visões para melhorar o nível do ensino
Depois de radiografar a realidade estrutural e de desempenho dos municípios da Região Carbonífera, bem como diagnosticar os principais problemas enfrentados rotineiramente nos estabelecimentos de ensino, a segunda reportagem da série Os caminhos da Educação faz um apanhado de ideias de como melhorar o nível de qualidade do ensino nas escolas. Para isso, convidou pessoas ligadas à educação e especialistas na área para mostrarem suas visões, por meio de artigos, quais ações poderiam ser executadas para alavancar o conhecimento e os indicadores de desempenho da Educação.
Educação com qualidade social
Prof. Dr. Jose Clovis de Azevedo*
Quando assumimos a Secretaria
de Estado da Educação (Seduc), sabíamos dos desafios,
e iniciamos nosso trabalho voltado para a qualidade social da Educação.
Nesses pouco mais de quatro meses de trabalho, detectamos muitas coisas boas.
Temos escolas com a produção pedagógica excelente, com
inovação e dedicação dos professores. Mas também
dentro deste contexto, encontramos alguns com a autoestima muito rebaixada,
que não conseguem ter uma produção que dialogue com a
necessidade da qualidade de ensino.
Precisamos transformar nossas escolas em espaços coletivos de debate,
alegria e criatividade. Queremos escolas com vida, com inspiração,
que se relacione com as artes e com a ciência, que conheça os
gostos e tendências de seus alunos. Queremos que as salas de aula sejam
espaços de vanguarda e não mais de rotina. E só teremos
sucesso na nossa empreitada se trabalharmos juntos.
Seremos uma gestão voltada para o trabalho coletivo, que irá
somar energias e transformá-las em ações positivas para
a sociedade. Seremos uma gestão consciente de que se trabalha com pessoas,
não com coisas. Estamos buscando a educação de qualidade
social, uma educação que tenha qualidade e dialogue com a cidadania,
com a formação de um sujeito com consciência social, identidade
aos conceitos da democracia e com competência técnica, para se
colocar no mercado de trabalho e buscar a sua sobrevivência.
A partir deste objetivo, temos três eixos de atuação.
A valorização profissional dos educadores, com a busca gradativa
da melhoria salarial, a realização de concurso público
e a normalização da situação funcional dos professores
que tem promoções e mudanças de níveis atrasados.
O segundo ponto é a recuperação física das escolas
e a modernização tecnológica. E o terceiro eixo é
a formação permanente de professores, que vamos fazer em cooperação
com as Universidades.
Acreditamos que dessa forma, poderemos proporcionar o acesso irrestrito à
educação, democratização do espaço escolar,
apropriação do conhecimento acadêmico nas práticas
diárias do aprendizado e a humanização dos relacionamentos.
Nós, educadores, devemos construir ambientes atualizados, motivadores,
que transmitam a sensação real de aprendizagem.
Nossa tarefa não é nada pequena. Após a universalização
do ensino fundamental, iniciada nos anos 90 e consolidada na década
passada, existe um novo perfil de aluno dentro das escolas públicas
e é preciso nos readequar a esse novo público.
Assim, convido a todos para participar e construir a nova educação
gaúcha. Eficácia para nós é a aprendizagem dos
alunos, que está diretamente ligada ao protagonismo do professor. Para
a Educação gaúcha, o futuro já começou!
(*) Secretário de Estado da Educação
Como melhorar a educação brasileira - Parte 1
Gustavo Ioschpe*
Bismarck dizia que nunca se mente
tanto como em véspera de eleição, durante a guerra e
depois da caça. No que tange às eleições, espero
que esteja certo, porque naquela que me parece a área mais nevrálgica
para o desenvolvimento futuro do Brasil - a educação - é
melhor que aquilo que foi prometido durante essa campanha presidencial seja
apenas retórica eleitoreira. Pois todos os candidatos se aferraram
a um discurso quantitativo já superado (mais escolas, mais vagas, mais
dinheiro etc.) e evitaram a discussão que importa: como melhorar significativamente
a qualidade da educação de nossas escolas.
O que fazer para que o Brasil evolua com a magnitude e a rapidez necessárias?
Para este colunista, o caminho está na junção de três
fatores: práticas de sala de aula, formação dos professores
e administração escolar. Neste artigo, falo da primeira ponta
do tripé.
Mesmo com o baixo nível de formação de nossos professores
e diretores escolares, há uma série de medidas que podem ser
aplicadas hoje mesmo, em qualquer sala de aula, que tendem a melhorar significativamente
o desempenho do alunado.
Antes, uma nota conceitual. Quando se fala aqui de melhorar o desempenho do
aluno, o que se está procurando é o aprendizado, medido por
meio de testes como Saeb, Prova Brasil, Pisa, TIMSS e outros, do Brasil e
do exterior. A base para as recomendações que vão a seguir
é a literatura empírica sobre o tema, publicada em revistas
acadêmicas, em que os dados são tratados com rigor estatístico.
Ou seja, não são teorias nem as opiniões e hipóteses
deste colunista, mas sim fruto de medição.
Se tivesse de resumir toda essa literatura - centenas de estudos, de vários
países e anos - em uma regra de ouro, diria: o tempo de contato entre
o aluno e o professor é muito valioso e escasso, e deve ser usado apenas
para atividades educacionais. Tudo aquilo que pode ser feito fora da sala
de aula deve ser feito fora da sala de aula.
A primeira prática de um professor efetivo é, portanto, o uso
eficiente do tempo de aula. Muitos professores chegam atrasados a suas salas.
Perdem tempo fazendo chamada, dando recados e advertências. É
um desperdício. O mais grave ocorre depois. Para muitos dos nossos
professores, "aula" significa encher o quadro-negro de matéria
e pedir aos alunos que a copiem, depois passar exercícios e pedir-lhes
que os resolvam, e finalmente, se sobrar tempo, tirar uma dúvida ou
outra. É um erro. Copiar texto é algo que pode ser feito em
casa, então deve ser feito em casa. Exercícios, se são
feitos pelo aluno individualmente, também. O tempo de sala de aula
deveria servir para que professores e alunos conversassem sobre o texto que
foi lido em casa e os exercícios feitos em casa.
A segunda prática virtuosa, portanto, é o dever de casa. As
pesquisas mostram que alunos que têm de fazer dever de casa mais frequentemente
aprendem mais, especialmente a partir da 4ª série. Um estudo feito
em Minas Gerais mostrou que alunos de professores que prescrevem e corrigem
o dever de casa aprendem mais do que aqueles cujos professores simplesmente
o prescrevem. E alunos de professores que, ao corrigir o dever, comentam e
explicam os erros e acertos aprendem mais do que aqueles cujos professores
apenas marcam o "certo" ou "errado".
Relacionado ao dever de casa também está o tema dos exercícios
em sala de aula: são contraproducentes. Subtraem tempo de aula para
algo que o aluno pode fazer em casa.
Também na mesma lógica está a questão das provas:
alunos que são testados com maior frequência aprendem mais. Faz
sentido: quanto mais provas, mais o aluno tem de estudar. Quanto mais estuda,
mais aprende.
Outro dado importante da pesquisa: bom material didático ajuda. Um
bom livro didático, por exemplo, organiza e estrutura a prática
de sala de aula. Uma das demandas do professorado brasileiro é por
autonomia. Cada professor se sente no direito de reinventar a roda e criar
seu próprio currículo e método de ensino. Na maioria
dos casos, e especialmente quando a qualificação do profissional
é baixa, é receita para o insucesso.
Um aspecto importante para determinar aquilo que o professor faz em sala de
aula é quanto ele sabe sobre o que está fazendo/falando. No
Brasil, há uma ênfase muito forte na diplomação
universitária dos professores de ensino básico. É uma
percepção acertada, já que a pesquisa sugere que professores
com ensino superior obtêm melhores resultados (o mesmo não se
verifica, curiosamente, com os níveis pós-superiores, como mestrado
e doutorado, que se mostram irrelevantes para o aprendizado no ensino básico).
Porém, o diabo está nos detalhes: mais importante do que obter
o canudo é ter se formado na área em que vai ensinar. A pesquisa
mostra que o salto do aprendizado se dá quando o professor cursou faculdade
da disciplina que ele ensina. Um professor formado em matemática dará
uma aula de matemática melhor do que outro formado em pedagogia ou
história.
A maioria das pessoas acredita também que o tempo de atenção
dado a cada aluno é fator importante para o aprendizado, por isso tende
a querer salas de aula menores ou mais de um professor por sala. A pesquisa
não sugere que essas medidas tragam resultados. É melhor ter
um professor ótimo dando aula para 35 alunos do que dois medianos ensinando
em turmas de 18.
Outro erro comum que cometemos é acreditar que a tecnologia e a infraestrutura
são fatores determinantes para o aprendizado. Costumo ouvir, depois
de palestras, as reclamações dos nossos professores de que são
forçados ainda a conviver com "cuspe e giz" na era da internet.
Felizmente para eles, cuspe e giz não estão obsoletos, porque
são apenas mecanismos de expressão de uma tecnologia ainda sem
par: o cérebro humano. A pesquisa indica que dar a infraestrutura básica
- quadro-negro, cadeira e carteira para todo aluno, prédio protegido
das intempéries do clima e com energia elétrica - melhora muito
o desempenho do aluno. Mas, depois disso, as adições físicas
não têm efeito. Inclusive a presença de computadores na
escola, o que é deveras surpreendente. Depois do básico, o resto
é por conta do professor.
Se você é daqueles que gostariam de melhorar a qualidade da nossa
educação mas não sabe como, um bom começo é
instar a escola de seus filhos ou do seu bairro a seguir essas práticas
simples e eficazes. Não nos transformarão, em um piscar de olhos,
numa Finlândia ou Coreia do Sul. Mas são um bom começo.
(*)Economista e especialista em
educação
** Artigo publicado originalmente na revista Veja e reproduzido com autorização
do autor.