
Rodrigo Ramazzini
Em meio a um mundo de vozes que
ecoam diariamente pelo município de Charqueadas, nos últimos
dias, 43 delas tem destoado do habitual e chamado a atenção,
em falas que carregam um sotaque típico e a rapidez da pronúncia
do idioma espanhol. Se para nós gera curiosidade, imagine para quem
tem a missão de justamente desbravar um país. Além da
língua, mostrar essas e outras diferenças culturais é
um dos objetivos da comitiva chilena que desembarcou em solo gaúcho
na última quinta-feira para a realização de mais um intercâmbio
Brasil–Chile.
A turma da terra do presidente Sebastián Piñera e dos mundialmente
famosos mineiros, que passaram várias semanas soterrados embaixo de
uma mina, é da cidade de Mostazal, que fica a cerca de 60 km da Capital
Santiago. A localidade tem como fonte econômica a agricultura, mas está
iniciando uma migração para a industrialização.
Ainda, o local é bastante conhecido em terra chilena por abrigar um
grande cassino.
E foi com o prefeito de Mostazal e alunos e professores da Escola Gabriela
Mistral, que fica no município, que o jornal Portal de Notícias
conversou na tarde de ontem sobre as primeiras impressões deles ao
pisarem em território Charqueadense.
Em um começo de bate-papo, com ares de timidez, o estudante Javier
diz que não há muitas diferenças com a sua cidade natal.
No entanto, logo em seguida, começa a apontar várias:
- Aqui é muito quente! – fala abanando-se.
Ainda, ressalta a grande quantidade de árvores na cidade, e, já
mais solto, revela o que mais gostou de verdade:
- As mulheres são muito bonitas! – exclama soltando uma grande
gargalhada.
Trocando de tom, o jovem Javier declara, também, que não gostou
nem um pouco de arroz com feijão, mas que o churrasco gaúcho
foi mais do que aprovado.
Concordando com o colega sobre o prato típico gaúcho, o aluno
Martin diz que em suas primeiras impressões o que ganham destaque são
o trato amigável como está sendo recebido no município,
a forma plana dos terrenos e ruas de Charqueadas, já que o Chile é
extremamente montanhoso, a preocupação com o meio ambiente e
as diferenças gritantes de cultura e idioma. Ainda, aponta dois aspectos
que despertaram sua a atenção envolvendo os carros:
- Aqui, vocês usam cinto de segurança e escutam música
muito alta nos carros! – constata.
O trânsito desordenado e os desrespeitos às leis também
chamaram a atenção do diretor da Escola Gabriela Mistral, Mário
Riquelme, que já esteve em Charqueadas durante o intercâmbio
realizado no ano de 2003. De lá para cá, o diretor diz que encontrou
outra cidade esse ano:
- Foi possível perceber o quanto a cidade cresceu nesses últimos
anos. Muitas indústrias e comércio abundante! – declara.
Além disso, o problema da segurança pública foi percebido
por Riquelme, que sentiu a falta de policiais ao andar pelas ruas de Charqueadas,
já que no Chile é normal enxergá-los em grande número
pelas avenidas.
O diretor, que se diz um otimista em relação ao agrego de cultura
proporcionado pelo intercâmbio, destaca que são pontos altos
o carinho e o espírito fraternal com que a turma foi recebida por aqui.
E, com um sorriso no rosto, fala que está gostando da boemia noturna,
com festas em vários dias da semana, regadas a muita cerveja, ainda
mais depois de conhecer a quadra de uma escola de Samba de Porto Alegre, no
último final de semana.
Escola em três turnos
Essa foi a primeira vez que a
comitiva chilena, formada por 43 pessoas, que participa do intercâmbio
veio para o Brasil de avião. Nos anteriores, os mais de dois mil quilômetros
que separam Charqueadas de Mostazal, foram feitos de ônibus. Os alunos
são selecionados pelos méritos e qualificação,
ganhando a oportunidade de participarem do intercâmbio como uma forma
de premio. A professora Blanca, da Escola Gabriela Mistral, conta que a preparação
para a viagem começou no mês de maio e que muitos alunos já
mantinham contatos com estudantes Charqueadenses pelo MSN ou Facebook, para
que já houvesse uma aproximação, pois muitos chilenos
estão hospedados em casas de famílias do município.
Para a professora chilena, que fará uma apresentação
na próxima quinta-feira com o seu grupo de danças típicas
na Escola Pio XII, o calor, as comidas e a estrutura da cidade são
as primeiras impressões que marcam. Ainda, impressionou-se que por
aqui as escolas têm o horário dividido em três turnos de
quatro horas cada. No Chile, há apenas um turno de oito horas.
Para ela, essa troca cultural justifica a realização do intercâmbio:
- É uma forma de mostrar aos alunos as diferentes culturas existentes
e de incentivá-los a ser abrir para o mundo! - afirma
E, com um sorriso no rosto, também, revela que gostou da vida noturna
e das danças brasileiras.
Visão do prefeito
Como não poderia ser diferente,
o que mais chamou a atenção do prefeito Sérgio, de Mostazal,
o único da comitiva que arranha falar português porque já
esteve anteriormente no Brasil, inclusive no município de Butiá,
foi a forma de organização do governo.
- Aqui, a Prefeitura e a Câmara de Vereadores são separadas!
– aponta, já que no Chile os governos são formados por
um grande conselho que inclui os dois poderes, mas os mandatos, também
têm duração de quatro anos.
Até logo
A comitiva chilena fica no município
de Charqueadas até o próximo dia 14 de novembro. Até
lá, com uma programação intensa, pretendem ganhar muitas
experiências pedagógicas e culturais. E, pelo carinho que todos
revelam estar recebendo e pelas impressões relatadas, é certo
que na data as despedidas não terão a palavra adeus no vocabulário,
mas sim, um até logo.